, 08 de noviembre de 2026
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Somos como os peixes
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Somos como os peixes

Publicado 08/11/2026 10:51

Somos como os peixes

Recordo o Sermão de Santo António aos Peixes, uma das obras mais conhecidas e impactantes do Padre António Vieira, pregado no Brasil a 13 de junho de 1654.

Na sua metáfora prolongada, é absolutamente fascinante a forma como o Padre António Vieira utiliza os peixes como alegoria, criticando duramente os vícios e a crueldade dos homens. Na verdade, como ilustra o jesuíta e brilhante orador português do século XVII, os «homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros (…) e os grandes comem os pequenos».

Infelizmente, não aprendemos nada. Depois de tantos séculos, continuamos iguais: destruímo-nos uns aos outros para subirmos ao patamar do poder e termos ascendente sobre que está à nossa volta. Somos arrogantes, egoístas e cruéis. Somos insensíveis ao sofrimento alheio. Não sabemos colocar-nos no lugar do outro. Não nos vemos ao espelho para percebermos as evidências das nossas imperfeições. Seguimos em frente de forma arrogante e impiedosa, como se nada importasse para além do nosso umbigo. Não cultivamos a solidariedade, a tolerância e a compreensão. Não nos importamos com nada. Apenas connosco.

Neste sermão histórico, o Padre António Vieira aprofunda ainda mais a sua reflexão sobre a condição humana. Para além de muitas outras coisas, questiona a incoerência entre aquilo que se proclama e aquilo que verdadeiramente se pratica. Cito nova passagem do sermão que, passados quase quatro séculos, continua a ter uma atualidade desconcertante:

«... ou é porque o sal não salga e os pregadores dizem uma coisa e fazem outra ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem que fazer o que dizem.»

É uma reflexão extraordinária sobre a hipocrisia humana. Sobre aqueles que apregoam valores que não praticam, que defendem princípios que não respeitam e que exigem aos outros comportamentos que estão longe de assumir. Mas também sobre aqueles que, em vez de seguirem os bons ensinamentos, preferem reproduzir os maus exemplos. Neste sentido, o grande humanista português responsabiliza tanto quem devia dar o exemplo como quem, tendo a possibilidade de escolher, prefere seguir o caminho mais fácil.

E é precisamente aqui que a sua mensagem ganha uma dimensão ainda mais inquietante. Porque não basta denunciar a corrupção, a injustiça, o egoísmo ou a falta de solidariedade. É preciso que cada um de nós olhe para dentro de si e perceba até que ponto não contribui também para aquilo que critica. Afinal, de que vale falar de valores se não tivermos a coragem de os transformar em atitudes.

Sim, infelizmente, a metáfora dos peixes continua atual. Continuamos a comer-nos uns aos outros, os grandes continuam a devorar os pequenos e, demasiadas vezes, aqueles que deveriam ser exemplos de integridade são os primeiros a trair os princípios que anunciam.

Talvez o problema não resida apenas no facto de, a nível metafórico, sermos como os peixes. O verdadeiro problema é o de continuarmos a não aprender a lição que o Padre António Vieira, há tantos séculos, tão brilhantemente nos deixou.

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