Os tempos que vivemos são voláteis e repletos de ansiedade. Um manto negro parece envolver o nosso caminho. O futuro é feito de incertezas e de preocupações que não cessam de aumentar. Procuramos afastar os pensamentos mais angustiantes que nos atravessam a cada instante. Todos queremos ser felizes.
Como nos recordou Sophia de Mello Breyner Andresen, «o que vemos, ouvimos e lemos não podemos ignorar». E todos os dias vemos e sentimos aquilo que não podemos ignorar.
Por mais que queiramos seguir o nosso caminho em busca da felicidade a que todos temos direito, sabemos que não podemos fechar os olhos ao que acontece connosco e à nossa volta.
A humanidade parece perder-se a cada etapa desta viagem. Os alicerces dos grandes valores civilizacionais vão-se desmoronando diante dos nossos olhos. Vamos perdendo o chão que, durante tantas décadas, nos deu alguma paz e segurança. A ordem mundial transforma-se a uma velocidade que mal conseguimos acompanhar. No fundo, sentimos que o futuro nos está a fugir das mãos.
Estamos a deixar ao acaso o rumo das nossas vidas. Estamos a perder-nos quando devíamos estar a corrigir o caminho. Vivemos um tempo de viragem, em que muitas das conquistas que julgávamos seguras parecem estar em risco.
Por isso, precisamos, mais do que nunca, de gente que resiste e que não se deixa vergar perante as atrocidades. Precisamos de humanistas que inspirem todos aqueles que caminham de olhos fechados, incapazes de ver o que se passa à sua volta. Precisamos de agarrar o futuro com as nossas próprias mãos e de lutar por ele.
Temos de ser firmes. Não podemos continuar a assistir passivamente à destruição daquilo que tanto custou a construir. Não somos heróis, nem precisamos de heróis que só existem na nossa imaginação. Precisamos de nós. De gente comum que apenas quer viver a sua vida, com tranquilidade, dignidade e esperança.
Mas essa vida já não pode acontecer à margem dos outros. Viver implica também dar, cuidar e assumir responsabilidades perante a comunidade e a defesa da nossa humanidade.
Precisamos de ser mais humildes, mais atentos e mais solidários. Temos de abraçar a generosidade e erguer bem alto as bandeiras do respeito mútuo e do amor ao próximo. Precisamos de compreender que não nos salvamos sozinhos e que a humanidade só continuará a construir-se se formos capazes de olhar uns pelos outros.
Precisamos de estar inteiros, não apenas para nós, mas também para nos darmos aos outros. Precisamos de recuperar a confiança, de não ceder à indiferença e de acreditar que cada gesto de humanidade ainda pode fazer a diferença.
Porque resistir não é apenas dizer não ao que nos ameaça. É também continuar a acreditar, cuidar dos outros e não abandonar os valores que nos tornam humanos.
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