Nas comunidades que habitamos vive-se depressa e com múltiplos apelos disto e daquilo. A pressão aumenta a cada esquina do caminho. Fazemos muitas coisas ao mesmo tempo como se fôssemos robôs construídos para a execução de multitarefas em modo contínuo. Mas, na verdade, somos humanos, com todas as nossas limitações, dúvidas e incertezas. Depois de tanto navegarmos nos mares das tecnologias vamo-nos debilitando aos poucos. As doenças associadas ao foro mental vão surgindo a uma velocidade vertiginosa, convertendo o tabuleiro onde jogamos as nossas vidas num plano inclinado. Cada um de nós vai tendo o seu “cão negro” ou “black dog” como dizia Winton Churchill a propósito da metáfora que criou para descrever a depressão que o afectava. O antigo primeiro-ministro britânico foi exposto a situações de pressão extrema, entre outros, devido à sua participação nas duas grandes guerras e em particular às decisões que teve que tomar, muitos delas no limite da resistência humana. Churchill foi herói e é uma figura incontornável da história mundial recente. Mas também foi humilhado e criticado severamente pelas coisas que fez e que correram menos bem. Teve que lidar com isso e atravessar muitas zonas sombrias do seu interior profundo. Num tempo em que não se falava abertamente sobre saúde mental, Churchill foi pioneiro, descrevendo esse sentimento com uma precisão impressionante, identificando a situação como o seu “cão negro.” Combatia-o de muitas formas, pintando, assentando tijolos e realizando outras tarefas que exigiam concentração e esforço físico para que os seus pensamentos pudessem também assentar, libertando espaço para que pudesse seguir em frente, aliviando a pressão. Todos temos as nossas angústias, medos e ansiedades. Todos sentimos pressão e, na verdade, uma maioria cada vez mais alargada tem depressão. Precisamos de combater isso. Precisamos de assumir e dizer o que sentimos para ultrapassarmos as dificuldades da viagem. Churchill percebeu que quem vive a pensar nem sempre resolve os problemas estimulando a continuidade do pensamento. Às vezes, o cérebro precisa de ser confrontado com outras tarefas, substancialmente diferentes, para desligar. A execução de outras actividades, mais leves na perspectiva do pensamento, mas que exigem mais concentração e esforço físico não resolvem os problemas todos, mas abrem portas e janelas por onde podemos sair e respirar. Precisamos de fazer isso se queremos combater o “cão negro” que habita em cada um de nós sobretudo nas horas mais difíceis e de intensa pressão. O que verdadeiramente importa é quebrarmos os ciclos. Mesmo num dia mau há sempre coisas boas que acontecem e avanços que conseguimos registar. Vamos em frente que é para aí que mora a felicidade.
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