, 26 de julio de 2026
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Todos somos afinadores
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Todos somos afinadores

Publicado 25/07/2026 21:12

Há dias dava os parabéns a um enólogo pelos vinhos que tinha trabalhado. Respondeu-me que não era enólogo mas sim “afinador de vinhos”. Nesse instante, na mesa de um conjunto de amigos, encontrava-se um outro produtor que também se intitulava como “afinador”, neste caso de azeite. Talvez a “afinação” fosse apenas uma coincidência. Porém, esta curiosa definição dos mestres afinadores andou na minha cabeça durante dias, provocando diversas cogitações.

Na verdade, acabo por entender que todos somos afinadores de alguma coisa. Afinamos a nossa vida, limamos as arestas das nossas imperfeições. Aprendemos. Ganhamos experiência, vamos desafinando e afinando o que acontece. A prática de nós e dos outros vai-nos proporcionando um caminho de descoberta e afinação permanentes. Isso é uma grande bênção. Naturalmente, uns afinarão mais do que outros.

A nossa vida talvez seja, no fundo, uma eterna tentativa de encontrar a harmonia possível entre aquilo que somos e aquilo que desejamos ser. Não nascemos acabados. Somos uma obra em permanente construção, um instrumento que o tempo, as circunstâncias e as escolhas vão moldando. Cada encontro, cada perda, cada conquista ou desilusão acrescenta uma nova nota à nossa existência. Algumas são suaves e luminosas. Outras são dissonantes e difíceis de aceitar. Mas todas fazem parte da composição.

Afinar não significa procurar uma perfeição impossível. Um instrumento rígido, incapaz de ser ajustado, deixaria de ter vida. Também nós só permanecemos vivos enquanto aceitarmos a transformação como condição essencial para a afirmação da nossa humanidade. A verdadeira afinação nasce da consciência das próprias imperfeições, da humildade de reconhecer que ainda há muito a aprender e da coragem de mudar aquilo que pode ser mudado.

Há pessoas que passam a vida a afinar o mundo exterior: os sabores, os sons, as matérias, as palavras. Outras dedicam-se, muitas vezes silenciosamente, a afinar o mundo interior: os pensamentos, as emoções, os gestos e a forma como se relacionam com os outros. Talvez esta seja uma das mais nobres formas de sabedoria: compreender que a nossa existência não é uma obra concluída, mas um permanente exercício de equilíbrio.

Também nos afinamos uns nos outros. Somos, muitas vezes, instrumentos que se influenciam mutuamente. Uma palavra pode alterar o tom de um dia inteiro. Um gesto de generosidade pode devolver harmonia a alguém que estava em descompasso. Um encontro pode mudar a melodia de uma vida.

No entanto, há uma dificuldade essencial neste processo: para afinar é preciso saber escutar. Escutar o silêncio, escutar os outros, escutar aquilo que em nós pede mudança. O ruído permanente da vida moderna torna difícil essa escuta interior, mas sem ela corremos o risco de viver desafinados, repetindo notas que já não nos pertencem.

Talvez a maturidade seja precisamente essa capacidade de afinar continuamente a nossa presença no mundo. Não para sermos melhores do que os outros, mas para sermos mais verdadeiros connosco. Afinal, cada um de nós procura, na sua escala e dimensão, a nota certa e o seu lugar na grande sinfonia da existência.

Somos todos afinadores. Mas, acima de tudo, somos afinadores daquilo que recebemos de mais precioso: a própria vida.

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