Nem sempre acertamos. Nem sempre vencemos. Somos derrotados tantas vezes. Costuma dizer-se que quem falha no último instante "morre na praia". A expressão é antiga e poderosa. Evoca alguém que enfrentou o mar, resistiu às correntes, venceu as ondas e, quando a terra firme já está ao alcance da mão, sucumbe. Não faltou coragem nem perseverança. Faltaram apenas os últimos metros.
Mas a maioria de nós não vive epopeias marítimas. As nossas derrotas costumam ser mais modestas. Têm menos drama, menos glória e, por vezes, mais café.
Acontecem quando mergulhamos uma bolacha na chávena. Há um equilíbrio delicado naquele gesto. Tempo suficiente para amolecer, mas não tanto que se desfaça. Depois levantamo-la cuidadosamente. Tudo parece correr bem. A bolacha resistiu. O café ainda não salpicou. A boca prepara-se para receber a recompensa merecida.
E é então que acontece.
A bolacha parte-se. Cai. Desaparece no fundo da chávena. Uma gota de café atinge a mesa, outra a camisa. Ficamos a olhar para o vazio, surpreendidos pela rapidez com que uma pequena vitória se transformou numa derrota insignificante.
Talvez seja por isso que esta cena nos diz tanto. A vida raramente nos faz morrer no meio do oceano. Na maior parte das vezes, faz-nos morrer na praia. Ou, numa escala mais doméstica, faz-nos perder a bolacha a poucos centímetros da boca.
Há projetos, relações, oportunidades e sonhos que seguem exatamente esta lógica. Resistimos ao difícil, ultrapassamos os obstáculos mais evidentes e convencemo-nos de que o resultado já nos pertence. Depois, quando a meta parece garantida, algo cede. Nem sempre por culpa nossa. Nem sempre por falta de esforço. Simplesmente cede.
A tragédia da bolacha não está na perda da bolacha. Está na proximidade da conquista. O que nos incomoda não é aquilo que nunca tivemos; é aquilo que já julgávamos nosso.
Mas talvez a sabedoria escondida nesta pequena tragédia seja outra. Talvez a vida não esteja na bolacha que chegou inteira à boca, nem na que se perdeu para sempre no fundo da chávena. Talvez esteja no gesto de pegar noutra bolacha e voltar a tentar.
Não porque tenhamos a garantia de que desta vez será diferente. Não porque a experiência nos torne imunes aos contratempos. Mas porque existe em nós uma espécie de esperança teimosa, uma recusa silenciosa em aceitar que uma queda seja o fim da história.
Porque, no fim de contas, viver é isso: sobreviver a uma sucessão de pequenas praias, de pequenas quedas e de pequenas derrotas. E continuar a sentar-se à mesa todas as manhãs, disposto a acreditar, uma vez mais, que desta vez a bolacha vai aguentar até ao fim.
E mesmo quando não aguenta, mesmo quando volta a partir-se e a afundar-se no café, há sempre uma bolacha seguinte. Talvez seja essa a forma mais simples da esperança: não a certeza de que tudo correrá bem, mas a vontade de continuar a estender a mão.
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