, 12 de julio de 2026
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Lavrar o ar
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Lavrar o ar

Publicado 06/07/2026 09:22

A expressão «lavrar a terra» pertence à nossa memória e ao nosso chão. Identificamo-nos com ela. Sabemos o que significa e também o que representa para tantas gerações que, ao longo dos séculos, foram moldando a paisagem, abrindo sulcos na terra para dela retirarem o sustento e construírem a vida das comunidades. O sangue do nosso sangue foi lavrando a terra, preparando-a para a sementeira. O trabalho árduo, o sangue, o suor e as lágrimas abriram caminhos de pão e de vinho, edificando futuros coletivos na casa comum da geografia rural.

Há dias, lendo o magnífico romance O Tribunal das Almas, de Fernando Paulouro, que nos conduz à história de Martinho Pessoa sob o jugo da Inquisição, deparei-me com uma passagem que me fez suster a respiração: «Esta era uma casa de grossas paredes de granito, com sobrado, que guardara no pátio restos de alfaias agrícolas, um arcaico arado de madeira, de rabiça poisada no chão e com relha levantada, como se quisesse lavrar o ar.»

Há imagens que ultrapassam o livro onde nasceram. Soltam-se da página e passam a habitar-nos. Aquele arado, de relha levantada, incapaz de tocar a terra e, ainda assim, parecendo querer lavrar o ar, deixou de ser apenas um objeto esquecido num pátio. Tornou-se uma metáfora do nosso tempo.

Talvez seja essa, hoje, a nossa mais urgente tarefa: lavrar o ar. Abrir sulcos nas suas entranhas para o renovar, lançando sementes de luz e de esperança nos caminhos de todos os amanhãs.

O ar tornou-se pesado, denso, quase irrespirável. Não apenas pelo que nele flutua, mas pelo ruído que nos ensurdece, pela pressa que nos desumaniza, pela intolerância que nos separa e pela erosão silenciosa da esperança. Precisa de ser trespassado pela relha do arado, que corte as ervas daninhas e devolva espaço ao que verdadeiramente importa.

Lavrar sempre foi um exercício de esperança. Ninguém abre um sulco para o presente. Lavra-se hoje porque se acredita no amanhã. Toda a agricultura é, antes de mais, um ato de confiança no futuro.

Também o nosso tempo precisa de ser lavrado. Agora. Com todas as nossas forças. Antes que a indiferença endureça o terreno da alma e esterilize o horizonte. Os nossos antepassados lavraram a terra para que não nos faltasse o pão. Talvez à nossa geração caiba uma tarefa diferente, mas não menos exigente: aprender a lavrar o ar, para que nunca nos falte a esperança.

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