Há dias, a propósito de uma questão tão importante quanto complexa, que exigia uma abordagem estratégica, alguém dizia que “muita cera apaga a vela”. A expressão ficou-me na memória e dei por mim a extrapolá-la para o nosso caminho de todos os dias. Na verdade, este provérbio encerra uma profunda lição sobre a vida. Muitas vezes julgamos que fazer mais, falar mais, escrever mais ou justificar-nos mais nos tornará mais compreendidos ou mais eficazes. No entanto, é precisamente o excesso que, tantas vezes, acaba por apagar a chama daquilo que procurávamos preservar.
Falar demais pode retirar força às palavras. Escrever em demasia pode diluir a mensagem. Justificarmo-nos constantemente pode revelar mais inquietação do que convicção, quando, muitas vezes, uma explicação simples ou um silêncio sereno bastam. Nem tudo precisa de ser dito, explicado ou defendido. Há momentos em que a serenidade da discrição comunica mais do que um longo discurso.
Para evitarmos o excesso de cera e mantermos a vela acesa, iluminando o nosso caminho na escuridão, precisamos de cultivar a ponderação. É necessário conter os impulsos, moderar os excessos e agir com equilíbrio. A verdadeira sabedoria não consiste em fazer sempre mais, mas em discernir quando o suficiente é, de facto, o bastante para cada momento e cada circunstância.
No fundo, viver plenamente é encontrar a justa medida em tudo o que fazemos, sobretudo nas palavras, nas ações, nas emoções e nas decisões. Porque, no final de cada processo, a sabedoria raramente está no excesso, mas na exacta medida das coisas. Cultivar a ponderação, saber gerir o silêncio e praticar a economia das palavras exige um treino continuado. Com o tempo, esse exercício poupa-nos a muitos problemas e torna mais serena e luminosa a forma como nos relacionamos com os outros. Se não apagarmos a vela com os nossos exageros, o caminho terá menos escuridão. Afinal, a luz que verdadeiramente nos guia alimenta-se mais da justa medida do que do excesso.
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