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Natália Correia: a poesia é para comer!
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Natália Correia: a poesia é para comer!

Actualizado 26/09/2023 07:58
Miguel Nascimento

Se fosse viva, Natália Correia, teria completado 100 anos neste mês de Setembro. Esta mulher das letras e da palavra, foi - e será sempre - uma poetisa (como gostava de ser chamada) maior da nossa portugalidade. Natália Correia que muitos chamavam de vulcão dos Açores para, justamente, associarem na mesma imagem a sua origem geográfica e a força da natureza que emprestava às palavras fortes e também à personalidade indomável, foi, acima de tudo, uma mulher livre e determinada, muito à frente do seu tempo.

Numa época ainda de grande conservadorismo, apesar da transição democrática e do dia “cheio de graça libertadora” (revolução do 25 de Abril de 1974) que tanto desejou, Natália Correia fez a diferença, navegando contra a corrente, exibindo notável coragem e ousadia. A longa ditadura que combateu, com palavras e actos, deixou-lhe marcas profundas, mas não lhe conseguiu roubar a esperança das madrugadas de luz que estariam para chegar e chegaram.

Na alvorada desse dia inicial da liberdade passou na rádio o seu poema “Queixa das Almas Jovens Censuradas”, pela voz de José Mário Branco. Era mais um sinal dos tempos de mudança que haviam de libertar os poetas da censura, da intolerância e da perseguição. O estado novo tinha-a condenado a noventa dias de prisão por ousar organizar, com o editor da Afrodite, Fernando Ribeiro de Mello, a Antologia de Poesia Erótica e Satírica, sendo acusada de indecência e atentado contra a moral pública.

O processo que se arrastou durante anos nos tribunais teve contornos inquisitoriais, incluindo a “inutilização legal” da obra através da fogueira que os agentes da PIDE se prestaram em acender e alimentar. Foi ainda processada por responsabilidade na edição das “Novas Cartas Portuguesas”, de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta.

Deu palco aos textos dos trovadores medievais e às cantigas de escárnio e maldizer de que tanto gostava e também aos autores contemporâneos que ousavam colocar palavras de liberdade e de luz onde havia noites de breu e escuridão. Saiu em “defesa do poeta” para dizer que “andava com uma camisa de vento ao contrário do esqueleto. E foi aí, nessa mistura de coragem e capacidade de romper barreiras diversas, entre elas as da intimidade, que se “jogou aos dados”, tendo ganho as paisagens (que os senhores tiranos) não vereis”. Sempre destemida, avançava sem receio pelos corredores do conservadorismo para, como aconteceu tantas vezes, lhe tirar o chão resvaladiço em que muitos dos seus fiéis deambulavam. Desafiava as convenções sociais com a sua poesia maldita e o seu posicionamento livre.

Era tão vigorosa quanto polémica. Foi deputada à Assembleia da República durante mais de uma década, sendo voz activa, respeitada e temida na defesa da cultura, das mulheres e dos direitos humanos. Dizia que a intervenção política era uma obrigação dos poetas. Seguiu esse caminho de forma consistente na oposição ao estado novo e depois no contributo inestimável para a consolidação do tempo democrático. As tertúlias pela noite dentro prolongavam a discussão política sobre os temas fracturantes que importavam.

Com uma oratória exímia, Natália Correia, convencia os que a escutavam que, na verdade, era “(..) uma imprudência a mesa posta / de um verso onde possa escrever./Ó subalimentados do sonho! A poesia é para comer.” Natália Correia desfilou com brevidade por aqui. Foi-se embora demasiado cedo. Mas foi intensa e clarividente, qual guerreira das causas humanistas que importava e importa defender.

A democracia fica a dever-lhe muito, nomeadamente no reforço dos seus valores fundamentais, sempre na construção de caminhos de paz, de idealismo, filantropia, dignidade humana e justiça social. Fazem-nos falta mais mulheres desta condição desassombrada que fazem ranger as cadeiras nos salões da hipocrisia para que a humidade avance mais depressa na defesa de tudo o que não pode perder. Tal como ela, creio “no incrível, nas coisas assombrosas, na ocupação do mundo pelas rosas,” e também que “o amor tem asas de ouro.” Se a poesia, como nos disse Natália Correia,” é para comer”, venham de lá esses ágapes intermináveis porque a vida passa a correr.

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