Domingo, 17 de diciembre de 2017

Em frente ao mar emudeci | Ante el mar, callé

“Nunca fui eu mesmo, mas talvez tenha mentido para dizer a verdade. Amanhã, quando acordar, irei à praia para cumprir um dos seus mandatos: Senta-se ao sol. E abdica para seres rei de ti mesmo.” Alfredo Pérez Alencart

O poeta Alfredo Pérez Alencart acaba de lançar, em Portugal, um novo livro de poemas, em edição bilingue, construindo mais uma ponte de afectos entre os dois países da Ibéria e o mundo percorrido além-fronteiras, por portugueses e espanhóis, ao longo de muitos séculos. O poeta peruano veio, há mais de três décadas de Puerto Maldonado, no Perú, para se instalar na bela e querida cidade das pedras douradas (Salamanca). Hoje, Alfredo Alencart é um salmantino universal na medida em que a sua notável e vasta obra se encontra traduzida em 50 línguas de cinco continentes. Agora as ondas do mar salgado português trazem-nos uma nova obra do poeta e convocam-nos também para um abraço às geografias dos afectos de todos os portugueses e espanhóis que ao longo de muitas marés, dispersas no tempo, sempre chegaram e partiram aos quatro cantos do mundo. Este manifesto poético ao mar é também um mecanismo que estimula o amor e faz desencadear emoções na viagem intimista que percorre as veredas da memória à procura das imagens de felicidade de uma infância intemporal. O poeta salmantino diz-nos que escreveu este livro em duas madrugadas, inspirado na brisa intensa do mar da Figueira da Foz (Portugal) e na constelação emotiva que a rebentação das ondas no cabo Mondego lhe despertou. Este rio de palavras poéticas abriu janelas da memória e viajou até às águas da selva amazónica e da geografia da infância para evidenciar o espanto que a primeira visão do mar, em Lima (no Perú), lhe provocou e que agora foi revisitada pelo extraordinário espelho de mar azul que a Figueira e a foz do Mondego congregam. O poeta da cidade das pedras douradas já não é o menino de 6 anos que se calou e emudeceu quando viu o grande lastro de mar pela primeira vez. Já percorreu muitos caminhos e frequentou muitas praias e diversos pontos cardeais. Mas, em nenhum deles sentiu o despertar dessa memória de infância, guardada no coração, como nesse belo mar da Figueira da Foz que atrai e apaixona todos os que se deixam seduzir pelo seu enorme encanto azul. Talvez por isso este livro escrito em espanhol (com tradução de Eduardo Aroso) seja também uma forma de homenagear e honrar Portugal, um país que agradece sempre e acolhe com prazer o amor que Alfredo Perez Alencart lhe tem dedicado. Esta declaração de amor ao mar e a Portugal é também um bom exercício sobre a intimidade plena, a dimensão sensorial e a exaltação dos sentidos que todos devemos explorar para nos sentirmos verdadeiramente livres e felizes. O poeta diz, com frequência (e não só a propósito do lançamentos dos seus livros) que Portugal nunca lhe saiu do espírito porque “é ali que oficio todas as saudades.” A geografia lusa foi, e é, pátria dos poetas e terreno fértil para a sementeira das saudades sempre marcadas pelas ausências prolongadas mar adentro, primeiro à procura de novos mundos e depois, ciclicamente, à procura do pão que faltava (e falta) na mesa do território dos afectos e das raízes. O sangue que corre nas veias de Alfredo Alencart tem uma riquíssima mistura cultural de Portugal, Espanha, do Perú, da América Latina e de mar adentro! Talvez por isso seja tão natural a forma como encaixa a sua poesia em todos os continentes e também como ela é aceite como sentimento endógeno de todas as pátrias onde as diásporas, os êxodos e os exílios se sentem com um coração sofrido e repleto de saudade, essa palavra tão forte e tão portuguesa! Nestes 21 poemas com que o poeta salmantino nos brinda sente-se o cheiro a mar e a exaltação de figuras maiores da lusofonia e do mundo. Cito apenas um pequeno pedaço desse beijo de mar que se escreve nas areias da Figueira da Foz a propósito do grande Fernando Pessoa: “Nunca fui eu mesmo, mas talvez tenha mentido para dizer a verdade. Amanhã, quando acordar, irei à praia para cumprir um dos seus mandatos: Senta-se ao sol. E abdica para seres rei de ti mesmo.” Recebe Alfredo este minha gratidão e este meu abraço de mar por continuares a sentir em português!