A grandeza da simplicidade


Há dias um amigo do coração contou-me uma história deliciosa. Partilho-a convosco na medida em que me encheu a alma. Gosto de partilhar o que é bom e também de reforçar a esperança a cada esquina para, entre todos, exorcizarmos as nossas dificuldades comuns. O meu amigo dava-me conta da intervenção que um grande autarca do Alentejo foi realizar a uma prestigiada universidade em Lisboa. O objectivo da comunicação era que o autarca partilhasse a sua experiência no meio académico para que ela pudesse ser objecto de reflexão generalizada sobre a importância do poder local. A sala da universidade, repleta de gente ilustre, académicos e outros, preparava-se para ouvir a comunicação do autarca. Escutam-se então as primeiras palavras do Presidente de uma câmara do Alentejo que, não tendo percorrido as cadeiras da universidade, se expressava de forma clara, com uma forte pronúncia alentejana, sobre a geografia autárquica que há muito conhecia e dominava. Para espanto de todos o autarca começa a sua intervenção relatando uma conversa que teve com um pastor. Nesse diálogo o Presidente confessava ao pastor que andava muito inquieto com pensamentos sobre o que é o infinito. Andava preocupado com essa questão. Queria ter uma resposta. Depois de uma pausa o pastor respondeu ao Presidente:”não te preocupes com isso! Então, o infinito é o meio sem pontas! Não tem mistério nenhum!” A partir daqui a sala deixou de registar o ranger das cadeiras e o breve murmúrio das conversas laterais que sempre existem nestas coisas. O silêncio instalou-se naquele ambiente académico para escutar com atenção as palavras da experiência autárquica num município alentejano. Na verdade há pessoas, sobretudo em meios mais elaborados, que gostam de explicar por palavras complexas o que é de natureza simples. Outras gostam de simplificar tudo o que é complexo. Esses são os sábios que, sem nunca se assumirem com tal, nos ensinam a todo o tempo o significado da grandeza da simplicidade que está presente em todo o universo. Às vezes andamos mais depressa e com maior conforto se conseguirmos simplificar tudo o que é complexo e que se apresenta à nossa frente, na nossa vida, no nosso caminho. Sim, o infinito pode mesmo ser apenas o “meio sem pontas” e a simplicidade pode assumir-se como a nossa maior grandeza.