Mudar de ares

As rotinas do chão que pisamos conferem-nos segurança e tranquilidade. Ficamos descontraídos por saber que a nossa base está ali e que nos movimentamos em torno dela. Alguns rituais são mecânicos, instantâneos e quase imperceptíveis ao pensamento. Cumprimo-los e pronto. Isso dá-nos leveza. Não realizamos um esforço adicional para concluirmos uma tarefa ou um conjunto de actividades. Mas, na verdade, a rotina também cansa, condiciona. Fartamo-nos dela, apesar de nos conferir enquadramento de porto seguro. De vez em quando precisamos de fintar a rotina e viajar para fora da nossa geografia da tranquilidade para procurarmos novos destinos e, sobretudo, para irmos ao encontro de novas emoções e outros desempenhos que nos exigem mais. Todos precisamos de uma pausa e de mudar, ainda que seja na perspectiva de serviços mínimos. Precisamos de sair e voltar ao lugar de origem ou mudar de vez para uma geografia diferenciada. E nem sempre isso significa uma questão materializada em novos territórios. Precisamos de mudar por dentro para podermos mudar por fora. E tantas outras vezes precisamos de mudar de ares para mudarmos por dentro. Viajar é das coisas mais importantes que podemos fazer. E por mais que possamos amar o nosso chão, as nossas raízes e os lugares rotineiros onde nos sentimos bem, temos sempre na cabeça a ideia da viagem … de irmos sem sabermos bem para onde. A vontade de partida está entranhada na nossa pele. A rotina cansa-nos muito. E as pausas servem para descansarmos dela. Nem sempre partimos. Ou porque não queremos por estarmos demasiado acostumados ao lugar. Ou por não podemos partir porque estamos demasiado condicionados financeiramente para o fazer. As contas por pagar e as responsabilidades assumidas retiram entusiamo à planificação da viagem, da partida, seja lá isso o que for. Na verdade, nada nos deve impedir de cumprirmos o nosso destino estrutural da “mudança de ares”, a começar pela nossa própria vontade. A “mudança de ares” é um bálsamo que nos devemos oferecer em permanência para, entre muitas outras coisas, cumprirmos as rotinas que temos que cumprir com outra disposição. Nós não somos donos do nosso espaço e do nosso tempo. Somos viajantes e nómadas das emoções e dos lugares que queremos conhecer com pessoas dentro. A hesitação entre partir e ficar deve ser diminuída ao mínimo para nos sentirmos livres em todas as escolhas que fizermos. E se o dinheiro condiciona a partida, planificamos melhor e escolhemos destinos que estejam ao alcance da nossa bolsa. Mas precisamos de ir, de mudar de ares, para nos renovarmos e consolidarmos o nosso caminho de mudança permanente. Mudar de ares é mudarmo-nos por dentro e por fora. É partirmos com sentido de regresso. É ficarmos alimentando o desejo de partida. Mudar de ares é levantarmos os pés do chão. É sermos o que queremos ser, libertando todas as amarras que nos prendem ao cais, ao porto seguro. Vamos a isso que se faz tarde!