Os caminhos que escolhemos

A propósito dos caminhos que escolhemos recordo, com frequência, o diálogo entre Alice e o gato Cheshire, desenhado a letras pelo extraordinário romancista Lewis Carol (pseudónimo). A conversa entre uma criança e um gato no país das maravilhas é tão intensa quanto adulta. Por isso, precisamos de olhar para o outro lado do espelho para conseguirmos ver a mensagem muito para além de uma história, aparentemente, para crianças. Alice e o gato cruzam-se no seguinte diálogo: 

 

-Gatinho de Cheshire (...) Poderia dizer-me, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?

- Isso depende muito de para onde quer ir - respondeu o Gato.

- Para mim, acho que tanto faz... - disse a menina.

- Nesse caso, qualquer caminho serve - afirmou o Gato.

 

Ao longo da vida fazemos muitas escolhas, certas e erradas. Seguimos por caminhos diferentes. Seguimos em frente ou não.Tropeçamos nas pedras do caminho. Caímos e levantamo-nos. Voltamos ao ínicio. Recomeçamos as vezes que forem necessárias. Em muitas situações sabemos para onde ir e qual a direção que devemos tomar. Outras vezes estamos perdidos e desorientados. Só queremos sair dali. Para isso, como diz o gato, qualquer caminho serve. Ora, a vida não é fácil como sabemos. E se andarmos sempre a “sair” de onde não queremos estar acabamos por escolher qualquer coisa e aceitar o mal menor desde que não estejamos ali. Precisamente por sabermos que a vida não é fácil temos que escolher (e tantas vezes fazer) o nosso caminho. Assim, nem todos os caminhos servem. Só os que nos conduzem ao que queremos importam, mesmo que sejam duros de percorrer. Alice na geografia do país das maravilhas ensina-nos coisas que devíamos apreender para tornarmos a nossa vida mais leve, fazendo as escolhas certas dos caminhos a percorrer. E ao fazermos as nossas opções estamos a resistir à tentação fácil de seguirmos atrás dos outros e ao mesmo tempo a confinar as variáveis dos caminhos incertos. O gato tem razão - em determinadas situações qualquer caminho serve. Mas essa não pode ser a regra. Tem que ser a excepção se quisermos ser nós, por inteiro, e não um resumo promovido pelas circunstâncias.