Um homem não se rende

“(...) eles aí estão, tenho de defender o meu quadrado, não há outro sentido senão este, lutar até ao fim, um homem não se rende, não seria bonito, seria, aliás, se me permitem, uma falta de educação, uma grande falta de educação.”  Manuel Alegre, no conto “O quadrado”

A vida é uma sucessão de combates. É uma montanha de desafios para atravessar. Nas suas florestas densas estão perigos à espreita e inimigos a dobrar. Enfrentamos tudo com a coragem necessária para cada momento. Estamos vigilantes e à espreita. Estamos de atalaia pelo que vemos e também pelo que não conseguimos descortinar. Esperamos pelos inimigos e defendemos o nosso quadrado como nos diz Manuel Alegre no seu belíssimo livro de contos “O quadrado”. Sim, na verdade, um homem não se rende por mais que nos intimem ou intimidem. Às vezes, no meio de tantas guerras sem sentido, voltamo-nos para trás e confrontamo-nos com o espelho que nos reflecte. Ali, naquela imagem surpreendente, os inimigos somos nós! Mas mesmo assim não nos rendemos! Temos que defender o quadrado mesmo perante os inimigos que somos nós. O quadrado é o nosso reduto, a nossa última instância, a nossa linha vermelha que não pode ser pisada nem ultrapassada. Ao longe vemos os sinais e escutamos os sons da tenebrosa hipocrisia dos falsos amigos, das meias verdades e de todos os jogos de sombras. Dizem-nos ao ouvido para nos rendermos. Para tornarmos tudo mais fácil para todos. Para deixarmos de chatear. Apesar da sedução directa e dissimulada, não nos rendemos. Temos que defender o nosso quadrado, a nossa dignidade e a estrutura que em nós resiste a todas as contrariedades. Sim, a vida não é fácil e o combate consome-nos ao mesmo tempo que nos dá força. Apesar de tudo o quadrado continua no seu lugar, intacto, justamente porque sempre o defendemos com galhardia. O poeta Manuel Alegre diz-nos que não há outro sentido “senão este, lutar até ao fim, um homem não se rende, não seria bonito, seria, aliás, se me permitem, uma falta de educação, uma grande falta de educação.” Sim, é preciso defender o quadrado, o nosso quadrado, não por razões militares ou morais, mas por razões estéticas que nunca nos deixarão resvalar para a má educação. Um homem não se rende. Deve defender o seu quadrado até ao fim!