As marcas do tempo

Não somos perfeitos mas andamos sempre à procura da perfeição. A sociedade em que vivemos pressiona-nos em direção ao belo e a tudo o que é perfeito. A publicidade que entre dentro das nossas casas a toda a hora alimenta-nos em permanência essa obsessão. O tempo que passa por nós envelhece-nos. Deixa-nos marcas, por dentro e por fora, das batalhas que fomos travando ao longo da vida. O tempo vai-nos desfigurando e desviando dos cânones de beleza de que nos aproximámos na nossa Juventude. Agora que as marcas se vão tornando mais profundas estamos cada vez mais longe dos ideais de perfeição da imagem que cultivámos ao longo da vida. Também por isso temos tanta dificuldade em aceitar o envelhecimento. Fazemos o mesmo com os objectos e instrumentos que utilizamos no nosso dia-a-dia. Não queremos objectos velhos e desgastados. Não queremos coisas partidas ou rachadas. Porém, precisamente ao contrário, os japoneses praticam o Kintsugi como valorização das marcas do tempo. Trata-se de uma arte de reparação de cerâmica quebrada através de um processo que envolve uma massa misturada com pó de ouro. Desta forma a peça recuperada fica com mais valor do que a peça intacta e original. Neste processo valoriza-se a imperfeição e o serviço das coisas. Depois, esta arte é transportada para a filosofia da valorização de nós, da nossa imperfeição e das nossas marcas do tempo. Devíamos seguir este caminho em vez de nos martirizarmos com as nossas rugas e com as marcas que o tempo e as batalhas deixaram em nós. Se guardarmos uma bonita taça de porcelana numa prateleira, ela permanecerá intacta através dos tempos. Não se partirá nem terá fissuras aqui e ali. Mas também terá passado todo o tempo sem servir uma boa refeição ou sem participar nos eventos que projectam a sua existência para além da sua ténue geografia. Nós também somos assim. Se nos fecharmos e não nos dermos aos outros não conheceremos a desilusão nem os problemas da vida. Não aprenderemos nada. Se nos resguardarmos teremos menos exposição e também menos problemas e, naturalmente, menos desgaste. Mas o que é a vida das redomas de vidro? Não é nada, absolutamente nada! Precisamos do confronto e da desilusão para aprendermos e para nos moldarmos. Precisamos do efeito das tristezas para valorizarmos as alegrias. Só ganhamos experiência no caminho, no combate. Depois de cada embate temos que aprender a reparar as nossas fissuras e a juntar os cacos das coisas que se partiram. Aí, nesses momentos tão belos quanto imperfeitos, colaremos tudo o que houver para colar, valorizando cada remendo de nós e cada corte cicatrizado no nosso corpo. Continuaremos a caminhar em direção ao sol deixando as sombras para trás e exibindo um sorriso próprio de quem tem uma vida para cumprir no meio de todas as imperfeições. Nessa caminhada que importa, as nossas marcas do tempo serão referências para nós e para os outros. Serão sentido de grupo e de comunidade nesta imensa geografia de afectos que devemos atravessar vezes sem conta, nomeadamente quando tivermos o coração ferido e magoado. É precisamente nos lugares de todas as imperfeições que seremos nós, na nossa verdadeira autenticidade.