O elogio da simplicidade

 

Entrando na extraordinária obra de Claude Lévi-Strauss encontro na simplicidade das coisas da vida um caminho alternativo para a complexidade do mundo moderno. Na verdade, a geografia ocidental tem, desde há muito, uma perspectiva sobranceira sobre as comunidades ditas primitivas e quase impenetráveis ao olhar da excessiva modernidade da nossa organização social. Se o caminho é a felicidade, simplifiquemos. E se essa for a opção devemos valorizar as coisas simples que residem na comunhão ancestral entre o homem e a natureza que sempre promoveu os equilíbrios necessários para a promoção do sustento e da manutenção do quadro natural. No meio das suas inquietações Lévi-Strauss convoca-nos para o caminho da simplicidade levando-nos, com facilidade e encanto, às veredas da vida simples das comunidades perdidas do mundo mas repletas de autenticidade e, sobretudo, de futuro. Ao longo dos séculos de avanços civilizacionais fomos construindo relações densas entre nós e sociedades demasiado complexas. E fizemo-lo a tal ponto que agora, face a problemas emergentes, sentimo-nos paralisados e sem soluções aparentes para seguirmos o rumo dos dias de amanhã. A complexidade em que nos deixámos emaranhar não nos liberta o peso para caminharmos e vivermos de forma leve. Complicamos tudo o que há para complicar. Não simplificamos nada. Enchemo-nos de regras, regulamentos, estratificações e catalogações em demasia. Não valorizamos a simplicidade e a alegria das coisas leves que se cruzam connosco nas calçadas dos dias que correm. Não valorizamos tudo o que é demasiado simples na medida em que nos habituámos ao peso e à complexidade das coisas que temos e fazemos. Seguimos o cheiro do materialismo e alimentamo-lo em todo o lado. Insuflamos o ego com tudo o que o dinheiro pode comprar. Não paramos um minuto para pensar na simplificação das nossas vidas e na absoluta necessidade de alivarmos o peso que carregamos em excesso. A cada gesto simples gostamos de complicar impondo regras e convenções sociais. Em cada objecto marcamos um preço. Arrastamo-nos no caminho sem percebermos que há momentos que não têm preço e que dinheiro nenhum pode comprar. Mas não valorizamos nada porque estamos demasiado obcecados em ganhar dinheiro para comprarmos o que pode ser comprado mas que, na verdade, não tem valor algum. Só nos damos conta disto e desta embrulhada em que nos fomos metendo ao longo da vida quando já não temos tempo ou estamos num beco sem saída. Por isso, e antes de chegarmos a esse momento derradeiro saibamos escolher a rota da simplicidade e estimular os nossos sentidos para valorizarmos o que temos que valorizar e que não tem preço marcado.