A crescente vontade de cruzarmos a fronteira

A pandemia do COVID 19 veio fechar as nossas fronteiras de Portugal e Espanha. Devido a questões sanitárias ergueu-se, de novo, o muro que há muito tinha sido derrubado. Todos compreendemos isso e estamos solidários com os dois governos ibéricos que tomaram essa decisão. Nestes tempos difíceis para todos as fronteiras voltaram a ter controlo do trânsito de pessoas, bens e mercadorias. Há excepções como era de esperar e as autoridades estão atentas e consertadas num verdadeiro propósito de segurança. Apesar de todas as circunstâncias a vida não pode parar e todos temos que nos adaptar a estas novas circunstâncias. Há muito que nos habituamos à doce liberdade de cruzarmos a fronteira para nos juntarmos aos nossos amigos do outro lado, da outra língua e da amizade de sempre. A fronteira foi e é um lugar simbólico. É uma linha que separa e une. Separa no que deve separar e une no que deve unir. Mas, como sabemos, apesar das ancestrais restrições à “passagem” dessa linha icónica, ao longo dos tempos foram construídas comunidades de afectos e geografias de amor e outras histórias. A fronteira em si é sempre mágica, com ou sem controlo. Ali, entre placas, que apontam a Portugal e Espanha há um misticismo que se impõe de forma natural. Por isso, a passagem para o lado de lá é sempre um momento que se executa com alguma solenidade ainda que tantas vezes sem lhe prestarmos verdadeira atenção e importância. Estamos todos resolvidos com as fronteiras, nomeadamente com a sua importância histórica, geográfica, cultural e institucional. Mas não estamos resolvidos quanto à impossibilidade de a atravessarmos apesar de todos compreendermos os motivos e as circunstâncias. Essa impossibilidade retira-nos o caminho do cumprimento dos afectos, das alegrias e cumplicidades que acontecem por aí nessa imensa geografia ibérica. Falta essa passagem livre que aumenta a saudade do encontro e dos reencontros adiados desde o início desta pandemia diabólica que nos tem levado tanta gente. Faz-nos falta atravessar a fronteira, para um lado e para outro, pelo simples prazer de a atravessarmos, de forma livre, e sem precisarmos de motivo aparente. A fronteira está ali à nossa espera de forma paciente. E nós olhamos para ela sem a podermos cruzar e sem cumprirmos amizades, amores e todas as comunidades que fomos criando com as nossas passagens de vida, para um lado e para o outro. A saudade aumenta e o coração aperta a cada dia que passa. A espera, demasiado longa, vai incorporando ansiedade aos dias que acontecem e adiando projectos pessoais e colectivos. Há uma vida feita de gente e coisas dos dois lados da fronteira que uma linha já não devia separar mas que separa. Matamos a saudade com conversas on-line em plena glorificação das novas tecnologias. Isso é bom, mitiga mas não resolve. Falta-nos o abraço, o abraço ibérico, o toque latino que faz cumprir a nossa humana condição nesta ponta mais ocidental da Europa. Faltam-nos as gargalhadas estridentes e as sonoridades musicadas de um “portunhol“ ou “espanholês” que se entende em todas as conversas possíveis e imaginárias. Falta-nos a vida das entradas e saídas dos bares, restaurantes, hotéis, lojas e de tudo o que mexe nesta nossa geografia ibérica. Sim, tenho muitas saudades dos meus amigos espanhóis e de percorrer as ruas da cidade das pedras douradas, a minha querida Salamanca, e também de atravessar a ponte romana que nos leva até Cáceres-Mérida-Badajoz, qual triângulo de tempos fantásticos de sonhos cumpridos e por cumprir. Faz-me falta, sempre, o caminho e a viagem pelas terras planas onde o sol se veste com cores fortes, aprisionando-nos à terra quente e intensa. Fazem-me falta as noite de contemplação da belíssima silhueta da Catedral salmantina, tempos e espaços de boas memórias, em que agradecemos às estrelas que nos vêm visitar todas os momentos que a vida nos oferece, quais aprendizagens constantes, repletas de magia e de afectos. Faz-me falta cruzar a fronteira em liberdade porque, entre muitas coisas e prazeres individuais e colectivos, isso significaria que a pandemia se tinha ido embora de vez. E essa condição é a mais importante de todas. Oxalá, o verão faça cumprir a saudade em todas as suas latitudes!