Miércoles, 3 de junio de 2020

O tempo inútil

Vive em nós um tempo inútil. Um tempo vazio. Um nada! Não se trata do nosso tempo de lazer que é fundamental para tudo e mais alguma coisa. Todos gostamos de tempos em que não temos nada para fazer. Todos precisamos de um espaço temporal que é só nosso, onde nos encontramos connosco, sem nada na agenda e muito menos no pensamento. Todos precisamos de tempo e espaço em que nos embalamos na brisa do vento que passa. Esse tempo de não fazermos nada enriquece-nos, faz-nos carregar baterias para as outras etapas em que temos que pensar e fazer muito! Não é desse tempo que hoje quero reflectir e partilhar convosco. É do outro tempo inútil e vazio que vos falo através destas palavras juntas. A vida é curta como sabemos. Ainda assim teimamos no desperdício e na inutilidade de muito do que dizemos e fazemos. O caminho está repleto de encenações e convenções sociais. Não se trata da encenação teatral, essa arte maior qual espelho de nós em versão aumentada, mas da verdadeira hipocrisia individual e comunitária que exige um grande esforço de representação, sobretudo para os que não são e nunca serão artistas da verdadeira arte teatral. Há por aí verdadeiras representações sociais corporizadas pelos que estão treinados no jogo da hipocrisia e da sedução para alcançarem os seus objectivos, quase sempre carregados de nevoeiro denso.  Esses são mestres da utilização do tempo inútil e do arremesso de palavras cheias de nada, de bajulação permanente de excelso “lambe cubismo”, essa extraordinária profissão descrita de forma magistral por Miguel Esteves Cardoso. Há por aí gente fútil e inútil, infelizmente demasiado elaborada na arte do engano e no jogo de sombras. Estão por aí, à solta, os lobos vestidos com pele de cordeiros, misturados com a manada, que, enquanto nos sorriem por fora, guardam ansiosamente a saliva interna de nos poderem deitar o dente e de nos passarem a perna enquanto nos acenam de longe simpaticamente, como sempre! E todos nós participamos neste jogo porque tememos a exclusão social, o isolamento e, sobretudo, o apontar do dedo inquisitório por andarmos fora do carreiro. Ora, o carreiro é o caminho que interessa a todos os lobos aparentemente mansos que frequentam a geografia da incerteza cinzenta onde a dúvida, propositadamente, paira sobre quem é quem e quando. O tempo inútil é o que desbaratamos nestes jogos involuntários em que entramos por educação mas dos quais não conseguimos sair sem danos visíveis e tantas vezes dissimulados para não confessarmos à evidência a nossa inevitável fraqueza. Enquanto nos entretemos nestes jogos e nestas vidas que não são nossas desperdiçamos o pouco tempo que nos resta. Por isso, e fundamentalmente por uma questão de emergência, precisamos de fechar todas as portas a esta tremenda inutilidade, deixando alguns a falar sozinhos e entretidos com os seus jogos de nada. Se assim fizermos restarão apenas os cabecilhas e os seus eternos servos que só encontram razão de ser nessa bolha artificial de que as suas vidas aparentes são alimentadas. Se os deixarmos a sós com os seus labirintos, rapidamente escutaremos o seu silêncio porque, num ápice, se comerão uns aos outros. Temos que, com urgência, fechar a torneira que alimenta este tempo inútil para nos dedicarmos à vida de quem gostamos e dos que gostam de nós, independentemente do que somos ou temos na escala social. O tempo inútil acabará no exacto momento em que acordarmos, um a um, dos nossos pesadelos e dissimulações, para abraçarmos a vida real das coisas simples e belas que, verdadeiramente, nos dão prazer. Renunciemos por isso, à inutilidade das nossas palavras, pensamentos e atitudes. Está na hora de seguirmos caminho sem carregarmos tanta hipocrisia nos ombros. Sejamos felizes seguindo viagem com maior leveza!