Miércoles, 3 de junio de 2020

Levantado do chão

“Se luar não houver, então o mundo que há é só este lugar onde ponho os pés, o resto são estrelas.” José Saramago,  in “Levantado do Chão”

Inspiro-me no belo romance de José Saramago para reforçar a ideia da enorme necessidade de nos levantarmos do chão. Agora, como escreveu o prémio nobel da literatura nesta poderosa narrativa sobre o Portugal do pós-25 de Abril, trata-se também de nos reerguermos face ao que nos aconteceu com a pandemia e com o pandemónio em que estamos mergulhados. Partindo da força das palavras que emanam deste livro, temos que adquirir consciência das coisas e do espaço em que habitamos para que tudo se levante do chão. Nesse sentido e ao estarmos confrontados com novas realidades e outras formas de submissão precisamos de, rapidamente, caminhar no sentido da nossa libertação. Na verdade, ontem como hoje, “se luar não houver, então o mundo que há é só este lugar onde ponho os pés, o resto são estrelas.” A pandemia condicionou-nos. Fez-nos parar quase tudo. Fez-nos reflectir sobre o tempo presente e do futuro. Perdemos a nossa liberdade, mas tivemos oportunidade para, dentro de quatro paredes, pensamos muito na falta que ela nos faz. A pandemia ainda não acabou. Estamos ainda em combate. Com esperança, sempre com esperança, julgamos que a “guerra” se encaminha para o fim mesmo que algumas linhas de combate continuem aqui e ali. Apesar disso e enquanto a vacina não aparece precisamos de continuar em frente com as nossas vidas para não criamos mais intervalos no nosso tempo que já é curto por natureza. Agora, enquanto a pandemia não se esvai já está aí o pandemónio com toda a força. Sem baixarmos a guarda em relação à pandemia é contra o pandemónio que temos que lutar com todas as nossas forças para não morrermos à fome. As linhas de combate são muitas e duras. Temos que lhes fazer frente como fizeram os homens e mulheres a que Saramago deu vida nas páginas dos seus livros e que foram também heróis do seu tempo na conquista de uma nova consciência social que permitiu consolidar a democracia e sonhar com o futuro. Em tempos muito difíceis os homens e as mulheres da terra imensa e das largas searas diziam: “Não é pelas oito horas e pelos quarenta escudos de salário, é porque é preciso fazer alguma coisa para não nos perdermos, porque uma vida assim não é justa (…) Não somos homens se desta vez não nos levantarmos do chão, nem isso seja por mim, seja por meu pai que está morto e não torna a ter outra vida (…).” Os tempos que vivemos continuam difíceis, com outras causas e variáveis, mas com efeitos comuns. Os efeitos da pandemia na economia estão aí e serão devastadores. Logo agora quê estávamos a recuperar da crise anterior das dívidas soberanas, somos confrontados com nova crise que já está a provocar danos gigantescos e criar mais desemprego, pobreza e novos desequilíbrios sociais. Olhamos para nós e projectamo-nos numa nova suspensão das nossas vidas como se não tivéssemos momentos de alívio para alimentarmos a esperança e continuarmos a caminhar. No meio destas crises e destes tombos económicos há sempre quem fique a ganhar (muito) ficando os mesmos de sempre a perder. É por isso e pelos nossos pais, pelos nossos filhos e pelos filhos dos nossos filhos que temos que levantar-nos chão que pisamos para seguirmos em frente, mas com consciência das coisas. E se assim fizermos colaremos os cacos que resultarão desta crise e construiremos comunidades mais fortes e solidárias para podermos contemplar com esperança o luar que iluminará a nossa terra mesmo nas noites mais escuras. Sim, temos uma nova luta pela frente! Vamos a ela!