A pobreza do outro lado do espelho

Vivemos há muito, lado a lado com a pobreza. Conhecemo-la e ignoramo-la. A que está perto e a que está longe. Porém, na verdade, hoje, com base nas novas tecnologias da informação e comunicação, nada está longe. Está tudo perto! E tudo nos entra pelos olhos dentro como se vivêssemos perto de todas as geografias da pobreza e com lupa aumentada! Ou seja, como nos disse Sophia de Mello Breyner Andresen, na sua Cantata de Paz, “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”. E como não podemos ignorar porque, precisamente, a realidade nos entra pelas casas dentro e, nesse sentido, só podemos hipocritamente ignorar ou então actuar. E actuar não significa lançarmo-nos nos braços da caridadezinha levando de arrastão tudo o que é imprensa apenas para ficarmos bem na fotografia. Dar não é humilhar! Auxiliar não é exibir! Dar o que podemos para ajudar o próximo é a nossa contribuição silenciosa para a dignidade humana. Ninguém deve passar fome e sem os bens essenciais à manutenção das suas necessidades básicas. Não devemos, nunca, deixar que os nossos pares percam a dignidade, mesmo que até sejam nossos adversários. Até o combate justo tem regras de ética e dignidade. Devemos ajudar de forma tão genuína quanto silenciosa. Aí, na quietude do nosso acto fraterno, está a magnitude da nossa vontade, de forma simples, natural, despida de todos os compromissos com a imagem e com a egoísta necessidade de mostrar o que nunca deveria ser mostrado. Às vezes, aqueles que dão, debaixo das luzes do estrelato, revelam mais pobreza do que todos os que, sendo verdadeiramente pobres, estendem a mão pedindo auxílio! E isto acontece tantas vezes e muitas delas de quem não se espera. Dar não significa humilhar e exibir. Dar é sinónimo de partilha, entrega e solidariedade. Nada disso precisa de fotografias para mais tarde recordar. Há coisas que nunca queremos recordar. Há momentos para esquecer. Há tempos para resolver e seguir em frente … dos dois lados da batalha, de quem dá e de quem recebe! Há silêncios e gestos que valem ouro pela sua simplicidade, eficácia e gratidão. Há abraços sentidos que ficam para sempre nas sombras e que geram solidariedades e compromissos inquebrantáveis e tantas vezes incompreendidos! Sempre que mergulho neste tema, escuto a narrativa, equilibrada e sensata, de quem, a partir de África, dá luz ao mundo. Por isso, não me cansarei de ler e reler as palavras de Mia Couto sempre que nos revela o essencial: “Existem, no entanto, várias formas de pobreza. E há, entre todas, uma que escapa às estatísticas e aos indicadores: é a penúria da reflexão sobre nós mesmos.” Embalado pela brisa da terra quente e também pela tonalidade das cores simples mas repletas de significado que as palavras deste escritor maior da lusofonia sempre representam, desafio todos os que têm consciência das coisas a medirem a pobreza a partir desta condição. Do outro lado do espelho encontramo-nos connosco, não com o nosso reflexo, mas acima de tudo com a evidência de nós, qual realidade nua e crua. É por isso e por muitas outras razões que devemos entrar nessa floresta negra de todos os nossos medos para nos despirmos de preconceitos e abraçarmos a vida tal como ela é, sem muros que separem as circunstâncias de cada um de nós. Sim, e numa perspectiva bíblica, do pó viemos e ao pó voltaremos. Se assim é então para quê tanta encenação?! Deixemos o palco aos artistas e à arte da criação! Reclamemos a dimensão humanista que permanece em cada um de nós no sentido de nos aperfeiçoarmos para sermos cada vez mais simples e naturais, sem jogos de espelhos e reflexos absolutamente enganadores. Com fome e sem roupa somos todos iguais, mais coisa menos coisa. Mas se juntarmos os nossos corações fortaleceremos o caminho que todos teremos que trilhar até ao fim da nossa jornada. Sim, precisamos uns dos outros. Por isso, devemos ser tão justos quanto pudermos!