Jueves, 1 de octubre de 2020

O coração na ponta dos dedos

Na sociedade contemporânea o coração está na ponta dos dedos, na medida em que o teclado do telemóvel é uma via aberta para todos os nossos estados de alma. As novas tecnologias da informação e comunicação e os aparelhos com multifuncionalidades extraordinárias são hoje extensões do nosso corpo. São uma espécie de complemento aos nossos membros e com uma ligação directa ao cérebro e ao coração.

Quando nos encontramos em geografias sem rede de telemóvel sentimo-nos perdidos. Quando as baterias das nossas extensões comunicacionais ficam em baixo sentimos que nos falta alguma coisa. Quando o telemóvel deixa de funcionar por alguma razão julgamos que o tempo nos foge e, ao mesmo tempo, pensamos que estamos a perder alguma coisa. Escrevo estas linhas reflectindo sobre a invasão que as novas tecnologias realizaram sobre o nosso corpo e, sobretudo, sobre a nossa mente. Há muito que converso com os meus botões sobre a voracidade deste tempo e a vertigem que provoca. Andamos de um lado para o outro em velocidades estonteantes. Corremos muito para todas as direcções e paramos muito pouco para pensar no sentido (ou na falta dele) das nossas correrias. Fazemos quase tudo de uma forma mecânica. Não nos demoramos no pensamento. Vamos e pronto. Não estou contra todos os sinais de modernidade e muito menos os que estão relacionados com as novas tecnologias, aparelhos sofisticados, redes sociais e afins.

Apenas me interrogo sobre a necessidade de moderarmos os excessos e de preservarmos a nossa intimidade. Nestas nossas correrias diárias o telemóvel acompanha-nos para todo o lado e estamos sempre em rede. Ou seja, permitimos que a nossa vida (os passos que damos e os que tencionamos dar) seja monitorizada pela rede a que aderimos de forma voluntária. Diante dos nossos olhos passam as notícias mais importantes e as menos importantes. Deslizamos os dedos da nossa mão pelo pequeno ecrã e visualizamos tudo e todos. Encontramo-nos com a verdade e com as verdades aparentes, quais realidades encenadas. Não questionamos nada. Não perguntamos por nada. Não vamos aprofundar as questões. Apenas viajamos através da rede e vamos ao encontro do existe e do nos querem fazer crer que existe. Para nós é tudo igual. O que é verdade e o que não é. Por isso, de forma absolutamente surpreendente, transformamos as redes sociais em confessionários públicos.

Ali, naqueles momentos em que estamos a sós com o nosso aparelho expomo-nos às multidões, à apreciação de terceiros e ao julgamento da própria rede que tudo arrasta. Ali, depositamos os nossos sentimentos mais secretos e escancaramos as portas da nossa intimidade. Ali, naqueles instantes, suplicamos pela atenção que nos falta das pessoas feitas de carne e osso. Por isso, mergulhamos a nossa solidão no hemisfério da comunidade onde todos podem observar o que se passa. E os outros fazem o mesmo. Expõem-se a tudo e a todos. E assim, com a tecnologia na ponta dos dedos vamos deixando de ser nós para passarmos a ser uma amálgama colectiva em contínua perda de identidade, sentido e razão.

Com o telemóvel nas mãos, sentados no sofá ou numa qualquer sanita, condenamos sem hesitar, chamamos os nomes todas a quem nos ofende, atiramos pedras a quem nos atira e atiramos pedras apenas por que sim. Não ponderamos nada, não temos temperança nem razoabilidade. Através dos nossos dedos que tocam nas teclas deixamos que o nosso coração funcione antes da razão. Dizemos e escrevemos coisas sempre pensar, sem nexo e, acima de tudo, sem respeito por nós e pelos outros. Ou seja, desperdiçamos o tempo quando, erradamente, julgamos que o estamos a aproveitar. Destruímo-nos aos poucos e não deixamos que a comunidade funcione com humanismo porque vamos matando o que nos resta com tecnologias cada vez mais aprimoradas. E nós, vamos deixando de ser nós, na medida em que desbaratamos a nossa intimidade e o nosso reduto em troca de uns míseros “likes”, apenas para termos mais do que o nosso vizinho. E tudo isto para quê? Para nada, com toda a certeza. Está na altura de ganharmos mais juízo e de fazermos mais por nós, pela nossa intimidade e pela construção de ambientes mais saudáveis para crescermos como seres humanos felizes.