Jueves, 5 de diciembre de 2019

O caminho duro do futuro

Recordo as palavras, sempre fortes, de Miguel Torga que nos estimulam a agarrar as rédeas da nossa liberdade no caminho duro futuro. Torga diz-nos para não descansarmos e para não querermos de nenhum fruto só metade. Diz-nos para darmos passos em direcção ao futuro, nesse caminho duro, e para não descansarmos enquanto não alcançarmos. Em “Sísifo” o mestre das letras desafia-nos ao recomeço sem pressa e também a continuarmos a sonhar colhendo ilusões sucessivas no pomar da vida e a assistirmos ao logro da aventura da nossa humana dimensão. Em cada recomeço revisito as palavras juntas do mestre para alinhar o foco do caminho que se perde a cada distracção. Nem sempre vou sem pressa. Mas tenho sempre vontade em colher o fruto por inteiro mesmo que, por vezes, me faltem as forças para subir à árvore. Quando por fim subo ao alto e colho um fruto no meio de todas as ilusões e desilusões que acontecem saboreio-o por inteiro como se fosse o último! É então que, embrulhado no doce prazer que a vida me dá, olho para cima e para baixo, vezes sem conta, com a esperança de vislumbrar o melhor trajecto para os dias que se seguem. Às vezes não é fácil. São muitas as pedras do caminho. São muitos os obstáculos para ultrapassar. Os mais duros estão dentro de nós, nas nossas constelações internas, nos nossos medos e hesitações. Só depois vêm os outros e as suas circunstâncias. Porém quando tudo se mistura, a fronteira entre o lado de dentro e de fora transforma-se num autêntico labirinto que exige sempre o melhor de nós para superarmos as dificuldades do frenético serpentear da vida. Tantas vezes pedimos a ajuda que não chega. Outras vezes sonhamos com uma mão forte que nos puxe do lugar de onde desejamos acordar. No jogo absolutamente arrebatador em que muitas vezes nos metemos percebemos que contamos apenas connosco e com a nossa determinação para seguirmos em frente, no caminho duro do futuro. No meio das dificuldades percebemos a latitude da nossa força. Tomamos balanço e pensamos positivo. Mas não nos ficamos apenas pelos pensamentos. Fazemos! Mexemo-nos! Tomamos balanço para sairmos dali e saltarmos para a frente. Nunca desistimos mesmo que as nossas energias estejam na reserva das reservas. Quando estamos confusos, desorientados, enfraquecidos e desiludidos podemos sempre deitar a mão aos poemas e aos poetas que, como Miguel Torga, nos sopram palavras fortes aos ouvidos. Aí, nesse encontro com melodia das letras, ganhamos impulso para vivermos a vida que temos para viver. Ganhamos força para lutarmos pelo futuro que queremos e, acima de tudo, para não nos deixarmos acantonar pelo futuro que vier. Nem sempre conseguimos superar o desafio mas pelo menos tentamos. Não ficamos à espera para ver o que acontece. Sonhamos e vamos. E, entretanto, fazemos!