Lunes, 16 de diciembre de 2019

O escudo de plástico

O mundo em que vivemos é duro. Está repleto de adversidades e de obstáculos para ultrapassarmos se quisermos seguir em frente. Sem darmos conta estamos no meio de batalhas e de guerras para as tentarmos vencer. Umas são pequenas e outras de maior dimensão. Nem sempre nos damos conta disso. Desse esforço. Dessa luta de todos os dias. Realizamos esforços sem fim, uns de forma consciente e outros de um nível quase imperceptível. Avançamos com os nossos esforços. Seguimos em frente. Ultrapassamos as dificuldades, uma após outra. E às vezes em ritmo frenético. Gastamos as nossas energias quase até à exaustão. Aprendemos com os nossos erros. Lamentamos as nossas falhas. Descansamos um pouco e voltamos para o meio de todos os desafios. Às vezes não podemos mais. Estamos desesperados e exaustos. É aí que temos que ser resilientes para não nos deixarmos afectar pelas batalhas que perdemos apesar de todo o nosso esforço. Nos tempos que correm a resiliência é uma qualidade assinalável na medida em que ela nos reforça para lidarmos com uma multiplicidade de factores negativos e dificuldades de grande dimensão. Ao sermos resilientes temos a capacidade de seguirmos em frente apesar de pensarmos que já não temos forças para continuar. E quando continuamos no caminho, na luta e nas batalhas de todos os dias não podemos deixar de ser quem somos. Não podemos perder a nossa essência. Não nos podemos deixar abater pela adversidade. Temos que continuar. Aprender e continuar. E às vezes temos que cumprir o que escreveu Elizabeth Edwards: “resiliência é aceitar a sua nova realidade, mesmo que seja menos boa do que a que você tinha antes.” As realidades em que nos movimentamos mudam a cada instante. Para enfrentarmos as duras batalhas e as circunstâncias difíceis em que por vezes nos encontramos temos que forjar armas e armaduras para nos defendermos e, sobretudo, para enfrentarmos o que deve ser enfrentado. Precisamos do nosso “escudo de plástico” de que nos falou Maurice Vanderpol, ex-presidente da Sociedade e Instituto Psicanalítico de Boston, a propósito da análise que efectuou a um dos períodos mais negros da nossa humanidade: o holocausto. O investigador descobriu que as vítimas que conseguiram sair dos campos de concentração mentalmente saudáveis tinham algo em que comum que designou por “escudo de plástico” como expressão maior da resiliência. Ou seja, apesar do terror a que estiveram sujeitos durante este período tenebroso da nossa história recente, milhares de pessoas conseguiram com base numa multiplicidades de factores que constituem o “escudo de plástico”, como o humor e a força das relações interpessoais, ultrapassar uma vivência muito difícil para continuarem o caminho e construírem as suas vidas longe dos pesadelos reais a que foram sujeitas. A força e a vontade de viver destas pessoas deve inspirar-nos para que nas nossas pequenas dificuldades do dia-a-dia sejamos capazes de sorrir para os obstáculos como princípio de abordagem para os ultrapassar e vencer. Se pensarmos nos “escudos de plástico” que milhões e milhões de pessoas tiveram que inventar para sobreviver também nós, inspirados nelas, seremos capazes de inventar as nossas armas para vencermos todas as batalhas que tivermos que vencer.