Domingo, 8 de diciembre de 2019

A canção da paciência

 

A nossa vida é frenética. Às vezes é quase alucinante. Não temos tempo para nada. Falta-nos paciência ao mesmo tempo que nos sobra ansiedade e nervosismo. Isso é um erro! A paciência é uma virtude que devemos aprender a cultivar. Não há melhor safra que essa. Na roda da vida queremos tudo e já! Vivemos para imediatismos e corremos freneticamente sem nos conseguirmos acalmar para contemplarmos o que está à nossa volta e reflectirmos sobre o caminho que estamos a trilhar. Recordo, a este propósito, a canção da paciência do Zeca Afonso: “As águas do rio, são de correr / cada vez mais perto, sem parar / Sou como o morcego, vejo sem ver / Sou como o sossego, sei esperar.” Apesar da história desta canção implicar uma relação de paciência e vingança por causa de uma questão de honra e dignidade procurarei apenas inspirar-me nas palavras fortes desta melodia para me concentrar, em exclusivo, na paciência em si como objectivo maior. Se dedicarmos alguma atenção à paciência toda a comunidade ganha. E nós ganhamos paz e tranquilidade. Alcançamos luz por dentro e um caminho mais largo diante do nosso olhar. Ganhamos perspectiva! A paciência é difícil de cultivar na medida em que os únicos terrenos onde podemos depositar as suas sementes são agrestes e pouco produtivos. São sombrios e gélidos. A paciência precisa de luz e de brisas frescas que sopram de forma suave sobre o nosso rosto. É, precisamente, na dimensão das dificuldades e nos extremos limites da tolerância que devemos usar toda a paciência que conseguimos guardar no nosso alforge depois de uma safra esforçada. Com paciência acertamos no tempo certo e na palavra que abraça e conforta. Com paciência escutamos mais e falamos menos. Através da paciência seguiremos viagem até à geografia do sossego onde, como o morcego, vemos sem ver e saberemos esperar. A espera pode ser uma coisa de nervos ou uma coroação da quietude e da disciplina a que nos entregámos. Por muitos dias cultivámos a paciência sem resultados aparentes, uma vez que o terreno em que trabalhámos arduamente foi sempre arenoso e seco. Esperámos em vão que brotassem frutos desta terra a que entregámos a força do nosso trabalho e a energia da nossa esperança. Durante a longa jornada não regateámos esforços para que a safra fosse produtiva. Deparámo-nos com a desilusão e com o cansaço. Sentimos o frio das noites sombrias e a tristeza de não conseguirmos alcançar luz para esta terra infértil que nos foi disponibilizada pelo destino. Trabalhámos dias e noites sem fim, com determinação e afinco. Mas nunca pensámos um minuto que fosse na experiência que estávamos a ganhar e nos ensinamentos sobre a paciência que estávamos a colher. Mas quando, através de uma pequena nesga de luz, conseguimos vislumbrar essa imagem, mesmo desfocada, e sentir com o coração, percebemos, para nossa grande alegria, que nada foi em vão! E quando nos conseguimos sintonizar com o caminho da paciência alcançamos outro patamar, outra realização e, naturalmente, outra felicidade. Se nos dedicarmos à sementeira da paciência encontraremos dias difíceis no horizonte enquanto as águas do rio vão correndo sem parar. Mas, um dia, tudo terá outro sabor porque as sombras darão lugar à luz e a confusão dos tempos que correm transformar-se-á numa imensa quietude. E isso é uma bênção para nós e para todos os que nos rodeiam. É uma imensa felicidade para todos!