Domingo, 8 de diciembre de 2019

25 de Abril, sempre!

25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava 
O dia inicial inteiro e limpo 
Onde emergimos da noite e do silêncio 
E livres habitamos a substância do tempo 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'O Nome das Coisas' 

Em Portugal celebramos hoje os 45 anos do 25 de Abril. Momento significativo da nossa história recente que nos restituiu a liberdade. A “revolução dos cravos”, como também é conhecida, abriu-nos as portas à democracia e ligou-nos de novo ao mundo livre. Agradeceremos sempre aos “capitães de Abril” que lideraram o MFA (Movimento das Forças Armadas) e também ao povo que resistiu ao longo inverno de 48 anos de ditadura que mergulhou o nosso país num sofrimento colectivo e no cumprimento forçado de um período negro e cinzento que nos isolou de todas as geografias onde se respirava a cor da liberdade e da democracia.

Em 1974 cumpriu-se o sonho colectivo e, com ele, vieram as gaivotas que voaram pelas searas de trigo, espalhando todas as sementes de esperança no futuro. Foi nessa madrugada de Abril que todos há muito esperávamos que se concretizou esse “esse dia inteiro, inicial e limpo” de que nos falava a grande Sophia de Melo Breyner no seu magnífico hino feito de palavras que desenhou de forma soberba o lugar “onde emergimos da noite e do silêncio. E livres habitamos a substância do tempo.” São os poetas que melhor traduzem as emoções e sensações de uma revolução. E esta, a nossa revolução dos cravos, foi cantada pela noite fora e por todas as madrugadas de liberdade que nos trouxeram até aqui.

A “Grândola vila morena” de Zeca Afonso que foi a ignição do movimento libertador das amarras da ditadura e de uma vida difícil e amargurada, nunca mais deixou de ser cantada por todos os homens e mulheres que amam a liberdade e que, por isso, teimam em regá-la como se fosse uma planta que nunca deve murchar. Este é também o dia da memória. É uma data para celebrar. É um momento para evocar no sentido de nunca nos esquecermos dos tempos difíceis que os portugueses passaram durante quase 50 anos.

É preciso lembrar para que nunca se apaguem as imagens da dor e do sofrimento colectivo, dos que resistiram, dos que foram torturados, mortos e deportados. Somos todos filhos dessa madrugada. E não queremos que a longa noite escura volte. Não temos saudades dela. Mas vampiros que vêm em “bandos com pés de veludo” como nos cantava o Zeca estão por aí e julgam-se “mordomos do universo e mandadores sem lei”. É preciso cuidado. Precisamos de estar alerta porque a democracia é sempre um projecto inacabado. Reclama trabalho constante. É preciso não esquecer para não repetir o tempo tenebroso da mordaça e dos dias bafientos.

Em Portugal a liberdade tem essa marca do cravo vermelho que fazemos questão erguer ao alto. Mas a liberdade conquistada pode ser uma liberdade que se esvai se não cumprirmos os desígnios de Abril e não lutarmos por ela em Portugal, na Europa e no mundo. Também por isso a evocação do dia luminoso desta extraordinária madrugada de Abril deve ter sempre um fortíssimo sentido pedagógico. É preciso passar a mensagem às novas gerações. É preciso contar as coisas como foram sem nos distrairmos de dizer as coisas como são, no tempo presente, na actualidade dos tempos que correm e da democracia que se deve refundar e actualizar todos dias. Nas ondas da revolução, Sérgio Godinho cantava-nos que “só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde e educação” e também que “só há liberdade a sério quando houver liberdade de mudar e decidir.”

Apesar da distância do tempo e do enorme fosso entre as duas realidades, esta poesia mantém-se absolutamente actual. No tempo de relembrarmos o 25 de Abril precisamos não esquecer que o nosso tempo democrático (45 anos) é ainda menor do que o tempo da ditadura (48 anos). Estamos quase lá. Superaremos, em breve, essa derradeira fasquia. Mas ainda falta. Vivemos muito tempo numa escuridão profunda. Por isso, devemos estar ainda mais alerta para travar os que tentam, a todo o custo, que o retrocesso aconteça.

A liberdade deve estar ao alcance de todos. E a verdadeira liberdade só pode ser alcançada quando todos puderem, verdadeiramente, defender as suas ideias e os seus ideais sem constrangimentos de qualquer espécie. As lutas por vidas dignas, salários justos, transparência, verdade, habitação, emprego, justiça social, cultura e educação para todos estão longe de serem esforços terminados. Combater a desigualdade é honrar o 25 Abril. Melhorar a vida das pessoas é semear a liberdade e o futuro. Cumprir Abril é caminhar pela humanidade. É manter a chama acesa do farol que nos iluminará o caminho. Por isso, digo: 25 de Abril, sempre!