Jueves, 25 de abril de 2019

You´ll never walk alone!

 

Inspiro-me em “you´ll never walk alone”, uma canção com uma história longa mas que ganha vida a cada jogo do Liverpool. Independentemente das questões clubísticas que dizem respeito às escolhas de cada um, a verdade é que este tema se torna arrepiante e inspirador quando cantado por milhares de almas que, em espírito de grupo, desejam encorajar a sua equipa a superar os desafios que tem pela frente. Neste meu arrazoado não quero percorrer os caminhos do futebol e muito menos as opções clubísticas. Desejo apenas central na essência da componente motivacional deste tema que foi regravado no início dos anos 60 pelos Gerry & the Pacemakers e por sugestão de George Martin (responsável cimeiro pelo sucesso dos Beatles). A história desta canção cruza-se com a epopeia de Bill Shankly que transforma o Liverpool num dos clubes mais poderosos da história do futebol até à década de 80. Para além das questões desportivas e da organização do clube, Shankly trabalhou muito a mística, a identidade do clube e o espírito de grupo através deste tema e também do famoso “Kop” (a bancada gigantesca de 30 mil lugares em pé, atrás de uma das balizas, transformada no verdadeiro símbolo das classes populares que sustentavam o clube). Esta canção, um autêntico hino emocional, mobiliza os indivíduos em torno do grupo porque, na verdade, nós não devemos caminhar sozinhos. E era aqui que eu queria chegar nesta pequena viagem feita de palavras. Naturalmente, devemos ter os nossos momentos de solidão, de alimento do nosso “eu” e de transformação da nossa personalidade em função das nossas coisas e dos nossos diálogos internos. Há momentos que são só nossos e que devem ser só nossos. Mas quando atravessamos as tempestades ou quando desejamos construir coisas maiores que nós e que vão muito para além da nossa finita e pequena dimensão devemos dar graças por podermos integrar grupos que nunca nos deixam caminhar sozinhos. Com o apoio dos outros membros do grupo temos mais força e determinação para caminharmos no meio da escuridão e também com o coração cheio de esperança. Sim, vamos de cabeça erguida e não temos medo de enfrentar todos os desafios e tempestades. Não caminharemos sozinhos e atravessaremos as turbulências em conjunto. Um dia, depois do trabalho de todos e das dificuldades superadas no seio do grupo cantaremos em uníssono a vitória merecida. Até esse dia sabemos apenas que não caminharemos sozinhos e que há uma força que nos empurra para a frente e que os torna mais fortes. Mas o próprio grupo é um desafio. Para o grupo e para nós. As nossas virtudes e defeitos somam-se às outras virtudes e defeitos do grupo. Dá-lhes escala. Crescem e multiplicam. Engrossam. Por isso, o equilíbrio e a ponderação são fundamentais para que o grupo caminhe sem que cada um dos seus elementos atropele o companheiro do lado. Num grupo a emoção andará à solta. Mas é preciso respeitar regras simples e informais que permitem que tudo flua com alguma ordem. Se isso acontecer o grupo funcionará bem no cumprimento dos seus objectivos e deixará espaço para que todas as liberdades individuais floresçam, fazendo com que o grupo seja maior em diversas vertentes … e o coração de cada um também. Nos dias de tempestade e nos dias de glória penso em mim e nas dificuldades e alegrias de cada momento do caminho. Mas, acima de tudo, projecto-me sempre no grupo porque me fez mais forte, ajudou a limar os meus defeitos e a potenciar as minhas virtudes. Se sofrermos uma derrota em grupo ela é diluída. Se festejarmos uma vitória em grupo ela terá mais brilho e mais alegria. Será maior! E não há como descrever a felicidade da partilha, dos pequenos e dos grandes momentos, quando nos conseguimos identificar com um grupo onde podemos cantar que nunca caminharemos sozinhos. A isso chama-se tempo de felicidade que deve ser aproveitado enquanto podemos!