Domingo, 8 de diciembre de 2019

A sorte de não conseguirmos o que queremos!

Inspiro-me outra vez em Dalai Lama para escutar as suas palavras sábias a propósito do que desejamos ao longo da nossa vida. O monge do Tibete diz-nos que “às vezes não conseguir o que se quer é uma tremenda sorte.” E tem razão! Nunca tinha pensado nesta situação segundo esta perspectiva. Já desejei muitas coisas que não consegui. Já trabalhei muito para alcançar coisas que nunca alcancei. A frustração de não conseguirmos as coisas que queremos faz-nos crescer. Faz-nos temporizar e reflectir sobre o que, verdadeiramente, desejamos. A frustração educa-nos! Ensina-nos! Abre-nos outras portas! Quando estamos demasiado focados numa coisa e trabalhamos muito para a alçarmos desperdiçamos muitos caminhos. Não conseguimos ver a luz que está à nossa volta! Às vezes, andamos cegos ao insistirmos num caminho que não é o nosso! O tempo e o espaço nem sempre acertam. E às vezes não estamos no tempo de fazermos determinadas viagens. É preciso esperar! É preciso esperar pelo tempo certo! E enquanto esperamos a nossa respiração torna-se mais calma. Relaxamos mais! Desconcentramo-nos do que nos tínhamos concentrado anteriormente. Dispersamo-nos. Deixamos fluir os sentidos. Absorvemos mais as sensações que estão à nossa volta. Deixamos entrar a luz no nosso coração! Tornamo-nos mais leves! A nossa visão torna-se mais disponível para observar o que nunca tinha observado por estar demasiado focada numa direcção específica. Entretanto, percebemos que investimos muito para tentarmos alcançar o que não alcançamos. Percebemos que o tempo não era o nosso e que o caminho traçado também não. Percebemos depois que há outros caminhos que são percorridos sem esforço porque são os nossos e os do nosso tempo. Não são melhores nem piores que os anteriores. Mas encaixam mais em nós. E em vez de provocarem dor e sofrimento, sopram-nos ventos de felicidade e esperança para agarrarmos com as duas mãos. No início hesitamos. Não sabemos se devemos iniciar novas viagens. Ainda estamos demasiado agarrados à nossa pedra de estimação que está depositada no fundo do poço. Para sairmos de lá temos que abdicar da pedra. Deixá-la no seu lugar. Ela não é nossa. Não nos pertence. E aquele lugar também não. Por isso, Temos que ter a capacidade de largar o que julgamos nosso mas que, na verdade, não é. Temos que ter a coragem de desistir dos caminhos que não nos levam a lugar nenhum para caminharmos onde nos dá prazer e onde podemos colher momentos de felicidade. As portas que estão fechadas para nós são oportunidades para batermos a outras que se abrirão com mais facilidade. Há moradas que não são nossas! E nós insistimos em entrar nelas! Desejamos muito entrar nelas! Mas o nosso lugar não é ali! Não nos querem lá! E nós vamos sentindo que as peças não encaixam e tudo o que fazemos não é valorizado. Nesse movimento todo o esforço é em vão. Por vezes até conseguimos entrar nessa morada. Concretizamos o nosso desejo. Mas não ficamos felizes na medida em que percebemos, de imediato, que o nosso desejo ardente foi construído em cima de falsas expectativas que nós criamos de forma involuntária. Nessas circunstâncias devemos sair o mais rápido possível para voltarmos ao ponto de partida e rumarmos a outros destinos. O grande Dalai Lama tem muita razão ao lançar luz e tranquilidade sobre este pensamento. Por isso, quando alguém não conseguir alcançar o que deseja deve sempre pensar se esse momento não é uma grande sorte que deve aproveitar para mudar de direcção. Às vezes é uma sorte não conseguir o que queremos. E se pensarmos nisto com a tranquilidade que o assunto merece também percebemos que as peças se vão encaixando, uma a uma, logo a seguir a uma aparente frustração. O tempo coloca tudo no seu devido lugar. Há um tempo para avançar. E um tempo para esperar. Se escutarmos o nosso coração com mais frequência ele nos dirá o que fazer. E por vezes não precisamos fazer nada, apenas apreciar a paisagem e respirar o ar fresco da manhã!