Jueves, 12 de diciembre de 2019

Quando o caminho é estreito

Quando o caminho é largo os caminhantes podem escolher entre muitas direcções disponíveis. Estão à vontade. Sabem que têm muitas opções. A diversidade que, em si, é um sinal muito positivo, conduz à distracção e ao relaxamento dos que caminham. Em caminhos largos os caminhantes deixam-se ir, por aqui e por ali. Às vezes perdem-se no meio dos outros. Deixam de fazer escolhas e vão com outros sem saberem muito bem para onde. O caminho largo é uma bênção. Mas não é verdadeiramente aproveitado pelos que tiveram a sorte de, pelas circunstâncias do destino, serem encaminhados para a porta larga. Ali, naquela geografia, há muita luz que brilha. Porém, ilumina pouco no meio da multidão. E muitos vão cegos julgando que vêem o que acontece. Ao invés, o caminho estreito está repleto de dificuldades. As opções são poucas ou nenhumas. Os que caminham têm que ter atenção e usar de todas as suas faculdades para não caírem no precipício. Sabem que não podem por o pé em falso. Por isso, seguem concentrados e determinados. Não se distraem. Sabem para onde vão. E seguem convictos de que esse é o caminho apesar de todas as dificuldades. Os que seguem com eles são poucos. Mas são amigos e verdadeiramente solidários. São unidos nas tempestades. Protegem-se. Ajudam-se! Criam laços fortes e reforçam cumplicidades. Respeitam-se. Respeitam a diversidade e a heterogeneidade que segue condensada no pequeno carreiro. Quando o caminho é estreito a fraternidade acontece. A humanidade ganha mais espaço. Os caminhantes crescem por dentro. Procuram a luz para seguirem em frente. Aproveitam a viagem. Aprendem com ela. Transmitem conhecimento aos mais novos. Aprendem uns com os outros. O caminho estreito é uma grande lição. Para aprendermos temos que o percorrer. Não é um caminho fácil. Às vezes o desânimo instala-se. Ao pequeno descuido somos tentados pelo precipício. Mas há sempre uma mão que nos agarra e não nos deixa cair. O caminho é apertado e conduzirá à porta estreita. É um caminho difícil e, às vezes, penoso. Mas é também um espaço de liberdade maior. Ali todos encontram a solidariedade, o amor e o alimento da alma. O pão que se partilha é parte do caminho e constrói laços inquebrantáveis. Ali, naquele caminho estreito, a proximidade apruma-se com naturalidade convocando a nossa edificação interior. Entretanto contemplamos a paisagem sem desviarmos o olhar do precipício. Estamos sempre vigilantes. Entramos em plena comunhão com a natureza e com os que seguem à nossa frente e na nossa retaguarda. Sentimo-nos como se fôssemos um só. Uma unidade que caminha apesar da diversidade que a compõe. O caminho vale a pena. Por isso, agradecemos a oportunidade para nos colocarmos à prova, para nos desafiarmos e, sobretudo, para nos metamorfosearmos no que somos, verdadeiramente. No caminho não há espaço para ilusões, apenas para a verdade das coisas e de nós. E é nessa verdade e também nesse confronto com o espelho que nos devolve a nossa imagem que olhamos para nós e para os outros com amor e com compromisso. Sim, seguimos mais fortes, mais unidos e mais autênticos. A partir da verdade chegamos à luz e à porta estreita. Quando a atravessarmos podemos sempre olhar para trás e contemplar com orgulho, a vida que vivemos, apesar de todas as dificuldades, e depositando esperança no amor que semeámos e na esperança que regamos todos os dias. Os mais novos lembrar-se-ão de nós, sempre. E nós agradeceremos sempre, do outro lado da porta, o seu gesto fraterno e, ao mesmo tempo, sem que eles percebam, beijaremos o seu rosto para continuem a viagem que é de todos nós, esperando que o caminho estreito continue a fortalecer e renovar a humanidade.