Jueves, 12 de diciembre de 2019

A arte do fingimento

A hipocrisia é uma arte muito antiga. O termo hipócrita refere-se a alguém que oculta a realidade atrás de uma máscara de aparência. Na antiguidade clássica os gregos usavam máscaras em conformidade com o papel que representavam. Porém, as máscaras de que vos quero falar não estão relacionadas com o teatro mas sim com essa arte maior dos tempos actuais que é o fingimento! O fingimento e a hipocrisia andam de mãos dadas, como sabemos. Fundem-se num só conceito e destroem tudo por onde passam. Não constroem nada, apenas destroem. Não fazem nada de bom, nem mesmo para aqueles que, dominando a arte do fingimento, utilizam a hipocrisia como arma para alcançarem os seus objectivos. Podem ter sucesso aparente. Podem ganhar isto ou aquilo. Mas estarão sempre a perder na medida em que o jogo que decidiram jogar não passa de uma aparência, quando nós, comuns mortais, vivemos na realidade dos dias que têm altos e baixos, onde nem sempre as coisas correm como desejamos. Há por aí muitos hipócritas! Proliferam como cogumelos e medram ao pequeno sinal de humidade. Contemplam-se ao espelho, horas a fio, e orgulham-se do domínio que têm da sua arte. Fingem o que não são. Exibem qualidades que não têm para ocultarem os seus defeitos. Não crescem nem se transformam. Dissimulam-se em metamorfoses aparentes para chegarem aqui e ali. Para alcançarem isto e aquilo. Fazem-no a pensar nos bens materiais, no conforto e nas luzes da ribalta. Não querem saber do conhecimento. Não querem saber de nada! Elogiam e adulam para trapacear. Levam ao engano com sorrisos. Serpenteiam-nos e enganam-nos a todo o tempo. Professam ideais, fazendo, na prática, o seu contrário. Exigem dos outros para se sentirem livres de amarras e compromissos. Para eles vale tudo, desde que se dissimule bem. Bajulam! Praticam o lambe cubismo! São, autenticamente, lambe-cús! Imbecis sem personalidade nem carácter. Não dizem sim nem não. Dizem o que os outros querem ouvir. São espertos. O verdadeiro hipócrita não tem contemplações com nada nem com ninguém. Olha apenas para o seu umbigo e para a satisfação das suas necessidades. Quer saber de si e como fazer para chegar primeiro que os outros. Pisa-os a todo o instante. Mas elogia-os a toda a hora. Exibe sorrisos enquanto afia as facas que serão espetadas no momento oportuno. Magoam as pessoas que lidam com eles e que não estão tão atentas apenas porque estão de boa-fé! A expressão da arte do fingimento faz com que o hipócrita (essa condição que prolifera em tempos também hipócritas), se ria sem vontade, exiba teorias que não pratica e evidencie qualidades que não tem para ocultar o que não se deve ver. O hipócrita é um medroso! Actua nas sombras, no diz que disse, na dissimulação das coisas. Não vive, sobrevive em mundos de aparências, entre máscaras que se colocam e retiram em função dos momentos e das necessidades. O verdadeiro hipócrita não é identificado com facilidade. Por ser refinado na arte do fingimento pode até atravessar uma vida inteira sem que os outros se possam defender das suas artimanhas. Mas, mesmo que isso aconteça poderá chegar ao fim da viagem com uma vida por viver. E aí, nesse instante derradeiro, se o homem da barca não o quiser levar para o outro lado do rio da eternidade, pode deixá-lo à deriva, no neveiro de todos os fingimentos e dissimulações para que se glorifique com a sua arte do vazio. Mas, atenção, estes não são os únicos! Quem nunca foi hipócrita que atire a primeira pedra! Todos somos hipócritas quando omitimos alguma coisa para nos protegermos ou quando não dizemos a verdade para não chocarmos os outros. Mas isso são questões pontuais que fazem parte da nossa vivência e da aprendizagem do caminho. Apesar de tudo somos uns modestos hipócritas nesta sociedade que vive de representações, do parece que é, alicerçada no tempo de todos os fingimentos que as redes sociais apenas amplificaram. Os verdadeiros hipócritas têm que ser combatidos, ferozmente, para nãos os deixarmos andar à frente dos que não possuem essa arte e apenas caminham como devem caminhar. E nós, também nos devemos combater, nas nossas falhas e incumprimentos, para podermos ser melhores seres humanos, mais verdadeiros e mais felizes. E devemos ser assim não pelo que parece que é, mas pelo que verdadeiramente é, com autenticidade e sem fingimento.