Jueves, 12 de diciembre de 2019

Amanhã é Natal, mas está ali uma cadeira vazia!

Ladaínha dos Póstumos Natais

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que se veja à mesa o meu lugar vazio 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que só uma voz me evoque a sós consigo 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que não viva já ninguém meu conhecido 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que nem vivo esteja um verso deste livro 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que terei de novo o Nada a sós comigo 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que nem o Natal terá qualquer sentido 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que o Nada retome a cor do Infinito 

David Mourão-Ferreira, in 'Cancioneiro de Natal' 

 

Sim, amanhã é o grande dia! Os nossos corações estão mais iluminados! Sentimos paz e saudade. Um misto de tranquilidade e inquietude coloca-nos borboletas no estômago. Já não somos crianças. Já não esperamos ansiosamente pela meia-noite! Já não esperamos pela sineta ou por um sinal de que aquilo que muito desejámos está para chegar às nossas mãos…. tudo porque ao longo do ano nos portámos o melhor que pudemos! Agora, que já temos caminho andando e a lembrança de muitos natais, gostamos de provocar sorrisos, promover a alegria e também de oferecer felicidade aos outros. Agora, depois de muitas noites longas, procuramos a quietude, a paz e o prazer de estarmos junto dos nossos e de quem gosta de nós. A nossa inquietude chega quando contemplamos a cadeira vazia que simboliza todos os que já partiram e também todos os que estando vivos partiram do nosso coração. E ao contemplarmos essa cadeira vazia lembramo-nos da importância de cuidarmos dos que gostam de nós porque, como dizia David-Mourão-Ferreira, na sua “ladainha dos póstumos natais”, também virá o dia em que essa cadeira nos representará e num outro dia, num outro natal, nós seremos o nada e nada fará sentido, nem o Natal, porque já ninguém se lembrará de nós! Se nos lembrarmos disto no Natal e nos restantes dias do ano, talvez aprendamos a aproveitar melhor o tempo que temos à disposição e também como tornar a vida mais doce, fintando todas as amarguras de quem nunca conheceu o sol que ilumina o caminho e vive apenas das aparências de nada. O Natal é o tempo verdadeiro, da passagem, do solstício, da renovação do tempo! As cores do Natal são vivas e convocam as coisas quentes apesar do frio que se faz sentir nesta época. As plantas e frutos deste tempo, o pinheiro, o azevinho, o musgo do presépio e a romã são elementos de cores fortes, são resistentes e saborosos. Conferem esperança a quem os toca e a todos os que se deixam envolver no seu charme e encanto. É também por isso que apesar de todas as saudades que nos tocam no coração sentimos uma paz interior e deixamo-nos invadir pelo espírito do Natal, mesmo que algumas lágrimas ainda povoem o nosso olhar. O melhor que podemos fazer pelos que já partiram e que verdadeiramente gostavam de nós é continuar o caminho não deixando que as luzes se apaguem em todos os natais. Sim, precisamos de acender velas para que a sua luz nos ilumine a todos e nos reúna à volta da mesa, os que estão e os que não estão! E por eles, por nós, devemos semear esse espírito luminoso do Natal para que as nossas gerações, as crianças e os jovens consigam fazer ainda melhor que nós na promoção dos afectos. Entretanto, a lareira precisa de uma volta porque o lume está a abrandar e já há quem reclame que a casa está fria. Juntamos mais um tronco e damos uma volta ao lume. A chama que nos aquece alimenta-nos a alma. O Natal está aí e olhamos para os que estão à nossa volta, sejam muitos ou poucos, sentimos que a vida vale a pena e também que o caminho deve ser feito com quem gosta verdadeiramente de nós. Não interessa a quantidade. Interessa a qualidade e a alma cheia. Não interessa o luxo, valem muito mais a simplicidade e a sinceridade. Vale muito mais a paz das coisas inteiras para que um dia, quando ocuparmos o simbolismo da cadeira vazia, alguém se possa lembrar de nós como uma pequena luz que brilha no escuro indicando o caminho dos afectos sempre que decidirmos ir por aí. Sim, ao pó voltaremos! Somos finitos. Esse dia chegará. Mas, enquanto não regressarmos para o lugar de onde viemos continuaremos a semear o amor e a esperança procurando contagiar os que acreditam nesta luz do Natal. Sim, antes de chegar esse primeiro Natal do nada em que nos transformaremos precisamos de aproveitar ao máximo esta oportunidade que a vida nos dá para sermos felizes. Vou parar por aqui porque precisam da minha ajuda na cozinha para trazer não o sei o quê….E enquanto vou e não vou, dou outra volta na lareira para que não se apague e contemplo o olhar sereno do Menino Jesus, deitado nas suas palhinhas, para renovar a minha esperança na humildade e nas coisas simples da vida. A cadeira vazia continua ali, no seu lugar, mas está cheia de luz!