Domingo, 8 de diciembre de 2019

Coloca-te na agenda!

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”  Fernando Teixeira de Andrade

Os tempos que vivemos são vertiginosos. Frenéticos! Não temos tempo para nada! Ninguém tem tempo para nada! Quase todos correm de um lado para o outro como se não houvesse amanhã. A vida não corre devagar. É acelerada! E nós aceleramo-la ainda mais como se existisse uma necessidade imperial de gastarmos o tempo depressa. Os ponteiros do relógio avançam sem piedade. O tempo passa e quase que não nos damos conta que a vida nos foge como areia entre os dedos da nossa mão. Precisamos de reflectir sobre a qualidade do nosso tempo. Fazemos muitas coisas que não queremos nem desejamos. Gastamos mal o nosso tempo. Não nos focamos no essencial. Não nos organizamos. Não planificamos a nossa vida para realizarmos as tarefas que têm, forçosamente, que ser realizadas para ganharmos tempo para nós. Se nos focarmos nas coisas que planificamos conseguimos realizar melhor, em menos tempo e com mais qualidade. E se assim procedermos ganhamos tempo para nós. Ganhamos tempo de qualidade. E isso fará de nós melhores seres humanos, mais felizes e com mais disponibilidade para ajudarmos os outros. Mas para isso precisamos de nos colocar na agenda. Precisamos de organizar melhor o nosso dia-a-dia para executarmos o que deve ser executado, separando o essencial do acessório e, sobretudo, guardando tempo para nós, para fazermos coisas de que gostamos e que nos fazem bem ao corpo e ao espírito. Enchemos a nossa agenda com coisas absolutamente dispensáveis. Vamos a isto e àquilo. Procrastinamos quando devíamos fazer. Entretemo-nos com minudências, conversas sem sentido e comportamentos de visibilidade social que não levam a lado nenhum. Não nos centramos em nós. Vivemos em comunidade e sofremos com a pressão que ela exerce sobre nós. Vivemos numa lógica de agradar aos outros e de seguir o caminho que os outros seguem. Somos como a formiga do carreiro. Recusamo-nos a sair da linha e a provocar a diferença. Gostamos das formatações sociais e seguimos o guião de todos os tempos para não sairmos da linha porque parece mal. Não dizemos nem fazemos porque parece mal. Recusamo-nos a pensar fora da caixa. Não fazemos por não querermos ser diferentes. Não cultivamos a nossa autenticidade. Temos medo de ser iguais a nós. Não regamos o jardim da nossa genuinidade. Não cultivamos o tempo da travessia de que nos falava o professor e poeta Fernando Teixeira de Andrade: “há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.” Também por isso nos devemos colocar na agenda para não ficarmos à margem da vida que passa. É tempo de ousarmos e de fazermos a necessária travessia para ganharmos qualidade para o nosso tempo.