Jueves, 12 de diciembre de 2019

O nosso relacionamento com os outros: proximidade ou comportamento invasivo?

No nosso relacionamento com os outros existe uma fronteira muito ténue entre a proximidade e o comportamento invasivo. Por muito queremos nem sempre percebemos os limites do nosso amor e da nossa amizade. Gostar muito significa dar espaço para que as coisas aconteçam. Gostar muito a tempo inteiro pode sufocar e estimular os comportamentos invasivos, mesmo que de forma inconsciente. Como em tudo na vida o equilíbrio é o tempero adequado à circunstância. Mas nem sempre somos equilibrados. Uns dias estamos mais para cima e noutros mais para baixo. Somos humanos, logo imperfeitos. Se fossemos perfeitos seríamos pouco interessantes. A conjugação dos nossos defeitos com as nossas virtudes faz parte da aventura do caminho. Permitem a nossa descoberta interior e o mapeamento informal dos nossos sentimentos e intimidades. Só quando nos conhecemos verdadeiramente é que nos poderemos dar aos outros com a autenticidade que nós e os outros merecemos. Nesses momentos de plena liberdade de fruição da vida devemos ter consciência dessa fronteira fina para que os limites nunca sejam ultrapassados. Tanto as amizades como o amor de uma relação precisam de espaço para que as individualidades floresçam e se encontrem na magnífica paleta de cores de um jardim perfumado. Para que as flores cresçam de forma saudável e brilhem ao sol não podemos estar sempre a regar as suas raízes. Se o fizermos elas apodrecerão. Cada pessoa tem a sua experiência, o seu caminho e a sua história fundacional. Por isso, há pessoas mais expansivas e outras mais reservadas. Há quem não tenha filtros e quem construa muralhas de preservação da sua territorialidade interior, da sua intimidade. Cada pessoa tem o seu ritmo e a sua forma de encarar o tempo que passa. As coisas mudam e as pessoas também. Os relacionamentos de amizade e de amor constroem caminhos comuns que, por sua vez, desencadeiam metamorfoses. A transformação deve acontecer de forma espontânea e em função dos diversos momentos da viagem. Nunca de forma abusiva ou invasiva. O respeito, o amor e a amizade pelo outro, ou pelos outros, devem constituir-se como linhas da grelha de partida de qualquer relacionamento. E devem ser mantidas ao longo do caminho. As pessoas adaptam-se. Encaixam-se nos noutros. E os outros encaixam-se em nós. Mas nunca devemos abandonar a nossa pele e muito menos a nossa essência. Se formos seguros de nós e conscientes de quem somos podemos dar mais aos outros e os outros receberem mais de nós. O vento deve soprar em todas as relações como a brisa suave se mistura num beijo intenso. Devemos alimentar a proximidade e cuidar do nosso jardim. Mas não o podemos inundar a terra de água a todo o tempo nem cortar e podar com tal intensidade ao ponto de não deixarmos crescer as rosas que tanto amamos. Devemos dar espaço e reservar espaço para nós. E devemos cuidar da nossa territorialidade ainda com mais afinco nos tempos que correm. Hoje as pessoas vivem em autênticas comunidades virtuais onde as intimidades são expostas a todo o instante. O desejo de mostrar o que se tem e o que se faz ultrapassa a necessidade do recato e da preservação da intimidade. A exposição em demasia diminui as geografias da intimidade e encurta os espaços de manobra e de recuo em caso de necessidade. Não podemos viver sempre na sombra da caverna, mas também não devemos andar sempre ao sol. Precisamos de equilíbrio e de muita sensatez. Por isso, devemos alimentar o caminho da auto-estima, primeiro, para nos darmos aos outros depois. Se for necessário andamos passos para trás para depois voltarmos para a frente com mais confiança e, sobretudo, com mais prazer. Preservar a nossa territorialidade não é um acto de egoísmo mas de grande sabedoria. Enquanto nos experimentamos e reflectimos com os nossos botões devemos contemplar a montanha para percebermos como é bela e também como devemos estar gratos à felicidade que temos em seguirmos no caminho com os que gostam de nós e nos completam. Também por isso devemos respeitar a nossa amizade e amor pelos outros, deixando que estes sentimentos fluam, sem se tornarem invasivos, para os outros e para nós.