Miércoles, 21 de agosto de 2019

O Mar Salgado

Por estes dias contemplo o mar. Olho para o seu imenso azul e para a tranquilidade que tanta água proporciona. Sendo um homem das montanhas sempre gostei do mar salgado. Gosto das minhas serras e serranias. Mas o mar salgado completa-me como se tivesse nascido junto ao seu areal quente. As ondas que vão e vêm cruzam o nosso olhar e convidam-nos à reflexão profunda sobre o sentido da nossa vida. O mar salgado tem esse efeito tranquilizador e ao mesmo tempo inquietante. Quando quebramos a rotina dos dias sobra-nos tempo para a vida e para as conversas connosco. O sal do imenso mar azul tempera-nos. Invade-nos e inunda-nos de emoções. A água fria e salgada equilibra o calor dos nossos pensamentos. Arrefece as temperaturas tórridas e promove o clima necessário para nos deixarmos embalar nas ondas que vão e vêm sempre com a mesma traquilidade e elegância. E quando temos tempo para falarmos connosco também temos mais disposição para escutarmos os outros e para nos focarmos em pormenores relevantes que nos escapam quando andamos mergulhados na rotina dos dias. O mar salgado estimula a comunhão, a partilha e a vida. Promove o diálogo e as conversas sobre o caminho. Trocamos opiniões e recebemos a informação que nos chega com mais disponibilidade. Temos mais tempo para escutar quando quebramos as rotinas. Temos mais tempo para nos ouvirmos por dentro. Enquanto o sol cumpre o seu ritual e as gaivotas voam freneticamente sobre as nossas cabeças à procura do peixe que chega do mar pela mão dos pescadores, percebemos que precisamos de muito pouco para que a vida se cumpra na felicidade dos dias que passam. O tempo é de descanso. E as pausas que todos merecemos promovem a tranquilidade e os pensamentos mais profundos. Quando diminuímos a velocidade do tempo de fazer entregamo-nos mais aos pensamentos e disponibilizamo-nos para simplificar o que deve ser simplificado. Mas, como se sabe, tudo o que é bom acaba depressa. E o descanso também acabará. Em breve a espuma dos dias povoará, de novo, a nossa constância diária. O tempo voltará a correr mais depressa e o mar salgado deixará de figurar no nosso horizonte visual. Regressarei às montanhas. Ao meu chão. Ao meu caminho. Nesta viagem de retorno ao lugar matricial desejo levar no alforge a tranquilidade do mar salgado para poder pensar melhor e, sobretudo, fazer mais pela vida e menos pelas rotinas a que nos entregamos por necessidade ou por não vermos outros caminhos e alternativas. Sabe bem quebrar a rotina e contemplar o mar salgado para percebermos, entre muitas outras coisas, que a vida passa num instante. Por isso, devemos prestar-lhe mais atenção e provocar mais intervalos no seu ritmo intenso. As pausas enviam mensagens simples ao nosso coração. Mas a vida não é feita apenas de pausas. Nem podemos ficar à espera da pausa do ano que vem para voltarmos a viver com outra calma e simplicidade. Como o tempo passa depressa devemos aproveitar a embalagem do mar salgado para mudarmos o que está mal nos intervalos das pausas. E há sempre tempo para mudarmos o que deve ser mudado entre o mar e as montanhas do nosso caminho.