Miércoles, 15 de agosto de 2018

Tenho saudades de tudo o que já não existe

Quando somos crianças olhamos sempre para cima. Para nós as coisas que nos rodeiam são gigantescas. O mundo é mundo grande e os adultos são sempre muito altos. Nesse tempo, mesmo que não nos proporcionem magia conseguimos fantasiar e imaginar mundos à nossa medida e também muitos seres com superpoderes. Acreditamos em todas as histórias de encantar que nos chegam por todos os lados e a qualquer instante. É a idade da inocência que devia ser uma história interminável. Mas não é. Depois crescemos e começamos, bem ou mal, a perspectivar as coisas de forma diferente. Já não olhamos tanto para cima a não ser para efectuarmos as nossas preces ou para contemplarmos as estrelas. Olhamos mais em frente e regressamos muitas vezes aos lugares das nossas memórias e afectos. Vamos percebendo que afinal aquele móvel da sala não era assim tão grande e descobrimos que a torre da igreja da aldeia não toca o céu, apesar de continuar a ser alta. No fundo, as coisas já não nos parecem assim tão grandes como nos pareciam quando eramos mais pequenos. Porém, apesar das nossas naturais metamorfoses há sempre pessoas, coisas, lugares, cheiros e pedaços do tempo e do espaço que fazem parte da nossa identidade. E as memórias de infância são as que mais perduram. São as que mais nos tocam. São as que mexem mais connosco. Às vezes, nas voltas do frenesim diário, vamos, ainda que involuntariamente, ao encontro de um tempo que já não existe mas que ainda assim fala connosco. Quando remexemos numa gaveta para encontrar uma alguma coisa ali depositada há muito e encontramos outra que nos desperta a atenção é como se, de repente, ligássemos um interruptor que nos liga à máquina do tempo. Nesse instante viajamos para a geografia da memória e olhamos sem pressa para um objecto que nos faz lembrar um espaço muito longínquo e repleto de memórias e de afectos. O nosso olhar atravessa-o e passa por uma espécie de portal para recuarmos ao tempo que esse objecto despoletou. Recordamos as conversas, as piadas, os risos e os choros, a alegria e a angústia, os afectos, a rigidez, os amores e os desamores. Mil e uma imagens circulam agora na nossa cabeça. Sentimo-nos como se estivéssemos numa plateia a assistir a um filme em que nos vemos como figurantes ou protagonistas da narrativa que acontece. As cenas passam em catadupa, sentimos o cheiro daquela lareira que crepitava numa noite de inverno ou o perfume do rosmaninho da noite de S. João. As conversas cruzam-se agora com o sabor daquele magnífico bolo de chocolate que acompanhava todos os momentos do final de tarde de domingo. O filme continua a rodar. Entrai e sai da nossa cabeça. Trespassa-nos o coração e provoca-nos uma dor imensa de saudade porque as coisas já não são como eram e, acima de tudo, percebemos que muitos já partiram. Naquele instante em que nos arrepiamos com o doce sabor das memórias sentimos saudades do que já não existe. O tempo é implacável. Não volta para trás. Deixa-nos apenas pedaços das memórias para que possamos seguir-lhe o rasto mas deixando-nos a certeza de que nunca o alcançaremos. É injusto e por vezes cruel. Lançamos a mão sobre o ecrã mas não agarramos nada. As imagens estão lá mas são invisíveis perante a realidade do presente. Há pessoas que já partiram. Os que morreram e os que estando vivos morreram para nós ou nós para eles. Aquela sequência de imagens que passa à nossa frente é como um espelho onde nos vemos reflectidos a contemplar um tempo bom que já não existe. Remexemos outra vez na gaveta e encontramos uma fotografia, depois outra. No fundo do tabuado encontramos outra coisa que nos liga a nova sequência de imagens e o coração começa a bombear mais depressa. De repente, alguém do outro lado da casa chama por nós. Nesse momento acordamos do sonho. Afinal o que fomos procurar ali naquela gaveta? Certamente que não eram as memórias ou as coisas que já não existem. Porém, de volta à realidade, pensamos naquele objecto que parece continuar a olhar para nós e prometemos aos nossos botões que dali em diante celebraremos todos os momentos da vida como se ela terminasse amanhã. Sim, aproveitemos o tempo das memórias boas, das pessoas que nos fazem bem e tudo a que temos vontade de nos ligar. O tempo voa. Há pessoas que saem das nossas vidas. Há memórias vivas que são sempre mais importantes que as imagens desfocadas que surgem ao toque de objecto que está no fundo de uma gaveta. Para termos menos saudades das coisas que já não existem devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para vivermos, com mais intensidade, as coisas que existem e que estão ao alcance da nossa mão.