Jueves, 12 de diciembre de 2019

Sobre a amizade que se sente e não se diz

“Não é amigo quem alardeia a amizade: é traficante; a amizade sente-se, não se diz.”  Machado de Assis

Por mais que nos iludamos sabemos que não temos muitos amigos. Temos alguns, poucos e verdadeiros. E se tivermos a sorte de ter alguns amigos desses, poucos e verdadeiros, devemos conservá-los e regá-los como as plantas do nosso jardim. Na nossa caminhada conhecemos muita gente, relacionamo-nos com muitas pessoas e construímos muitas relações interpessoais. Damo-nos bem com muito gente e cultivamos relações de cordialidade e simpatia com muitos dos que se cruzam connosco. Mas a amizade é outra coisa! Ao longo da jornada podemos construir amizades e perdê-las. Há quem diga que os amigos que se perdem não eram amigos de verdade. Não quero ir por aí. Isso fica para outro arrazoado. Quero apenas chamar a vossa atenção para a importância da amizade qual combustível que alimenta a nossa engrenagem e o tempo da nossa vida. A amizade é uma coisa extraordinária! É uma bênção! Na amizade, como nos disse Machado de Assis, “não importa o tempo porque há amigos de oito dias e indiferentes de oito anos!” Sim, isso também acontece! A amizade não está relacionada com o tempo mas com a qualidade e a intensidade das relações e, sobretudo, com a frontalidade de uma crítica e a força de um abraço. Os amigos estão sempre connosco, independentemente das circunstâncias do momento. Não desejamos amigos que nos bajulem nem que nos derrubem por questões de menor ou maior importância. Todos desejamos ter amigos que construam coisas connosco e que sejam verdadeiros cúmplices numa amizade fraterna e livre. Precisamos sentir a amizade e não de dizê-la por aí. Recorro, de novo, às palavras de Machado de Assis porque “não é amigo quem alardeia a amizade: é traficante; a amizade sente-se, não se diz.” Os amigos estão aí para celebrar connosco todas as nossas vitórias e, acima de tudo, estão connosco quando mais precisamos, nomeadamente quando temos problemas e as luzes das estrelas já não brilham para nos iluminarem o nosso caminho. Os nossos amigos aceitam-nos como somos, com virtudes e defeitos, e nós aceitamo-los como eles são, com outras virtudes e outros defeitos. A vida é também um crivo das amizades. É sobretudo no tempo das dificuldades e nas horas más que melhor sabemos quem está e permanece ao nosso lado. A amizade é como uma viagem de ida e volta. É uma ponte de reciprocidades. Os amigos devem rir connosco quando o tempo convidar a isso e chorar connosco quando esse tempo chegar. Não precisamos de risos previsíveis nem de choros piedosos. Precisamos de tempos verdadeiros e de amizades perfeitas que não se anunciem mas que se sintam na pele. Necessitamos, como Oscar Wilde referiu em tempos, de “amigos sérios, daqueles que fazem da realidade a sua fonte de aprendizagem, mas que lutam para que a fantasia não desapareça.” E também por isso e por muitas outras razões que o poeta rematava a propósito: “não quero amigos nem adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem sou!” Nós precisamos dos amigos para nos completarmos. Os nossos amigos precisam de nós para se completarem. Nesse sentido, a amizade não pode ser uma procura incessante de ombro e amparo; deve ser, acima de tudo, uma provocação permanente da alegria. A vida passa a correr. É um instante. Por isso, a viagem deve ser acompanhada e regada pela amizade pura e verdadeira. Às vezes precisamos de dar o peito às balas; outras vezes devemos permanecer em silêncio e ao lado dos nossos e, na maioria das vezes, devemos rir até ao limite das lágrimas porque a nossa caminhada deve ser realizada em conjunto e com todas as amizades que soubermos merecer, conquistar e preservar!