Lunes, 19 de agosto de 2019

Sabes qual é o teu lugar?

Referimo-nos com frequência ao nosso lugar. Ouvimos expressões sobre o lugar que uma determinada equipa ocupa na tabela classificativa ou do lugar que um determinado desportista ocupa no ranking da sua competição. Falamos de quem sabe ocupar o seu lugar e daquele que colocou o outro no seu devido lugar. Falamos do lugar que nos pertence e do lugar que queremos alcançar. Comentamos a distribuição de lugares do grande carrocel em que a política se foi transformando. Ou seja, falamos do lugar e dos lugares de forma absolutamente leviana, sem conteúdo e quase sempre sem sentido. Banalizamos o conceito de lugar entre demasiadas sobrancerias e outras excessivas humildades. Corremos entre lugares. Corremos de um lado para o outro de forma vertiginosa e meio sôfrega sem pensarmos no nosso verdadeiro lugar durante a nossa caminhada. Não nos questionamos sobre a viagem e muito menos sobre esse lugar que é nosso e que não está dependente de ninguém nem de vontades de fundo, de contexto ou de circunstância. Todos precisamos saber qual é o nosso lugar que, na maioria das vezes, não se encontra em nenhuma geografia que a vista alcança porque apenas mora no nosso coração. O nosso lugar é o tempo e o espaço onde somos felizes e onde sentimos o regresso dos afectos em sentido boomerang. O nosso lugar pode ser simplesmente o cruzar do caminho onde damos e recebemos tudo! Pode ser a brisa do vento que nos leva para o reencontro connosco e com os que gostam de nós! O nosso lugar nunca pode ser o palácio adornado pela intriga ou pelo falso brilho das coisas materiais avaliadas por aferidores profissionais do tempo gelatinoso em que vivemos e que celebra a hipocrisia como a verdadeira arte da representação social. O nosso lugar é aquele que não precisa de montra nem luzes de palco. É o lugar discreto mas onde mora o prazer e a felicidade sem necessidade de adornos e complementos. É o lugar onde somos nós, verdadeiramente, e onde nos agarramos à nossa pele com a intensidade dos tempos infinitos, libertos do controlo dos relógios e das horas contadas, para nos perdermos nas nossas correntes de dentro. Durante a nossa caminhada procuramos o nosso lugar e desejamos encaixar-nos nele. Não no lugar ou lugares para mostrarmos aos outros, mas naquele lugar onde somos felizes e onde encaixamos sem esforço. Às vezes o lugar que queremos - e que está em linha com o lugar onde nos querem - não existe por mais incessante que seja a nossa busca. Nunca encontraremos o lugar que procuramos se ele não existe. Por isso, não raras vezes, temos que criar o lugar que desejamos para nele encontramos a felicidade. Para isso temos que nos deixar guiar pela vida, assumindo todas as dificuldades e procurando contornar todos os obstáculos e superar todos os desafios que ela nos lança. Por vezes pensamos que o fardo é demasiado pesado e que a caminhada podia ser mais leve. Raramente pensamos que tudo tem um propósito mesmo que não o consigamos vislumbrar com leituras imediatas e quase sempre carregadas de emoção. A vida que flui à nossa volta sabe sempre qual é o nosso lugar. Mas não vai a correr dizer-nos qual é. Desafia-nos e lança-nos para o campo experimental. Empurra-nos e desequilibra-nos. Outras vezes, puxa-nos quando estamos a ficar sem força e agita-nos vezes sem conta. A vida mexe connosco mas não nos dá as respostas que desejamos. Obriga-nos a procurá-las! E esse é um grande propósito e uma extraordinária caminhada. Temos que nos deixar levar pela doce melodia que o cosmos nos presenteia todos os dias entre a fresca alvorada e o encantador escurecer. Temos que nos deixar embalar nas ondas desse mar infinito para levarmos o barco da nossa vida até ao lugar de nós, ao nosso lugar, onde mora a felicidade. Para isso temos que acordar das letargias em que andamos mergulhados para começarmos a prestar mais atenção ao que verdadeiramente importa. Se procurarmos encontraremos. E se não encontrarmos criaremos um lugar para nós onde caiba a nossa alma por inteiro!