Miércoles, 17 de octubre de 2018

A Passagem

Hoje, no último dia do ano, preparamo-nos para a passagem. Pensamos na festa e em cumprir o ritual da passagem mesmo que não pensemos muito nisso. O que interessa é celebrarmos como todos fazem. Despedimo-nos do ano que passou e formulamos desejos para o ano que aí vem. Comemos as passas e pedimos coisas como manda a tradição. Aliás, fazemos tudo como manda a tradição. Cumprimos o ritual e a repetição dos gestos que, ano após ano, vamos realizando, desde que não nos falte a saúde, esse bem maior! Na rua, em casa ou em qualquer lugar, com mais ou menos luxo, todos sentem esta excitação da passagem como se da noite para o dia, e com os ponteiros do relógio a comandarem o destino do tempo, tudo começasse de novo e todos os nossos problemas ficassem para trás. Sabemos muito bem que não é verdade. Mas, iludimo-nos. Deixamo-nos iludir pelo balanço do tempo e pelas luzes da festa em que mergulhámos a partir de meados de Dezembro. Olhamos para cima, para as estrelas que nestas noites parecem ter um brilho especial, fechamos os olhos e na nossa secreta intimidade pensamos no futuro, principalmente nos seus momentos bons. Sabemos que os problemas não se resolvem com varinhas de condão nem com passas e champanhe ao toque das doze badaladas. Mas, ainda assim, iludimo-nos e deixamo-nos iludir apenas para saborearmos o momento da festa da passagem. E fazemos bem! Entre o Natal e a passagem de ano andamos meio anestesiados, com os corações cheios e apertados, conforme as circunstâncias, deixando-nos levar pelo sopro do vento que nos empurra suavemente para bolas de cristal e para extraordinários momentos de fantasia. Na verdade, no meio desta constelação de luzes e de ambientes de afectos, há momentos de verdadeira felicidade, de comunhão e de partilha do melhor que todos temos, o amor! Mas, nestes tempos de êxtase colectiva sobram também os momentos de solidão, desencontros, desentendimentos, tristeza profunda e, sobretudo, de falta de saúde, esse bem maior como não me cansarei nunca de repetir. Devemos aproveitar estes momentos que as festas do Natal e de Fim de Ano nos proporcionam para estarmos com os que gostam de nós, familiares e amigos, celebrando a vida e desfrutando do seu encanto e de todos os seus prazeres. Este é também o tempo para nos divertirmos e para relaxarmos da tensão e do stresse causado por uma vida demasiado cheia que corre muito depressa, às vezes para lugar nenhum. Este é um tempo novo que deve ser vivido, dentro possível, com a maior alegria e celebração entusiasta das coisas boas da vida. Mas neste tempo de passagem, neste ritual que nos invade o corpo e espírito, devemos reservar um espaço para nós, para o nosso balanço interior e para o prazer de contemplarmos um caminho intimista de uma solidão absolutamente natural e saudável. Este é o tempo para nos escutarmos e também para nos questionarmos se temos seguido na direcção certa ou se está na hora de mudarmos e arrepiarmos caminho no sentido da construção ou consolidação da nossa felicidade individual. Se não alcançarmos a paz interior e a felicidade que alimenta o nosso coração todos os dias não conseguiremos semear a paz à nossa volta nem fazer os outros felizes. O desafio da felicidade é extraordinário! Devemos persegui-lo e arrastar os outros nesta grande viagem rumo à geografia da harmonia para construirmos, em conjunto, um espaço de afectos onde todos possam ser felizes. É sempre mais fácil escrever palavras de felicidade do que encontrarmos esse caminho! Por isso, neste tempo novo e de passagem, repleto de novos desafios e esperanças, desejo, do fundo do meu coração, que todos possam encontram a luz que ilumine o caminho em direcção à felicidade a que todos temos direito! Tenham muita saúde e sejam muito felizes, todos!