Sábado, 24 de agosto de 2019

O Natal entre o Palácio e a Manjedoura

Apesar da profusão de ideias, símbolos e significados, e também de apelos, nomeadamente ao consumo, hoje, na véspera de Natal, celebramos a natalidade: o nascimento do menino Jesus! Devemos ter noção deste momento simbólico, único, e determinante nesta nossa história comum com mais de 2 mil anos! Este é o ponto de partida e não um adereço num qualquer ponto de chegada. É a essência e a seiva que alimenta o caminho das estrelas! O Natal também é tempo de encontros e de partilhas, de reforço da solidariedade e de comunhão de afectos. É um tempo doce! Um tempo de afectos! É também, infelizmente, um tempo gelatinoso, de exercício de hipocrisias e de sorrisos de circunstância. Os afectos que o Natal convoca não são exclusivos desta quadra festiva. São para experimentar ao longo do ano e sobretudo quando as luzes não se encontram em modo intermitente e ofuscante. A luz do Natal, que enche os nossos corações de forma ainda mais intensa neste mês de Dezembro, deve estar presente em todo o tempo da nossa caminhada. Não podemos dar no Natal, porque estamos mais disponíveis para isso, e esquecermo-nos de quem precisa ao longo de todo o ano. Não podemos dar visibilidade à caridade, com muito espectáculo à mistura, quando, no resto do tempo, se sofre em silêncio e na mais completa escuridão. Temos que dar a quem precisa no tempo certo e saber receber quando o nosso coração pede. A luz deve brilhar sobre as trevas, como nos invoca o solstício que acabamos de atravessar, sempre! E é por ela que devemos alimentar o nosso espírito, sempre! E não nos devemos desviar do caminho essencial, apesar de todos os apelos, por mais simpáticos que sejam, que este tempo dominado pela pressão comercial nos confronta. Todos gostamos de oferecer e de receber presentes. Todos gostamos de coisas boas sobre a mesa. Todos temos direito ao melhor que a vida nos pode dar, mesmo no nível material. Mas, acima de tudo, devemos ser solidários e trabalhar para que a comunidade em que nos inserimos tenha o mínimo indispensável para que nenhum dos nossos tenha privações de qualquer espécie, sempre e ao longo de todo o tempo. A solidariedade não se pode transformar num exercício de intermitências e de sinais ténues. Deve ser um caminho consistente! Se assim fizermos podemos todos gozar melhor este tempo de luz, desfrutando de todos os encantos da época festiva, sabendo que os afectos moram, de forma livre, em cada um dos nossos corações. Não quero nem desejo ser moralista. Sou um homem carregado de defeitos e de imperfeições. Tenho muito que aprender com o que a vida tem para me ensinar. Preciso de limar muitas arestas para amanhã me tornar melhor do que sou hoje. Mas, na verdade e independentemente das minhas circunstâncias, desejava que este tempo do Natal fosse vivido por cada um de nós com outra intensidade espiritual e com outro sentido das coisas. Se hoje celebramos o nascimento do Menino Jesus devemos começar por reflectir sobre os sinais que nos foram dados a conhecer com o seu nascimento. O Menino não nasceu num Palácio mas sim numa Manjedoura e no meio da maior simplicidade, entre gente humilde, pastores e animais. As portas de todas as casas estavam fechadas para que a luz desta natalidade pudesse acontecer. Mas ela não deixou de acontecer e de convocar toda a humanidade para uma gruta que devia servir de espelho das nossas atitudes perante o Natal e também ao longo de todo o tempo da nossa jornada. Andamos perdidos, baralhados e envolvidos num manto demasiado denso que não nos deixa ver a luz para além da cortina que está justamente à nossa frente. Vivemos num frenesim para nada. Perseguimos as coisas materiais e corremos para uma escadaria onde quem tem mais pensa que está acima dos outros. Nada de mais errado! Precisamos de olhar com mais atenção para a Gruta, para a Manjedoura e, sobretudo, para o Menino e para o que nos quer dizer com tamanha simplicidade! Entre as luzes do Palácio e a humanidade da Manjedoura todos devemos escolher o caminho, sendo certo que na hora da partida não levamos nada connosco e aos olhos de Deus somos todos iguais, com os nossos defeitos e virtudes!