Sábado, 7 de diciembre de 2019

O grande desafio de compreender o outro

“Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela.” Fernando Pessoa

A comunicação é a chave da compreensão. Não quero entrar em grandes considerações sobre a grande questão da comunicação. Não tenho essa pretensão. Deixo isso para os especialistas. Por isso, desejo apenas afirmar que, salvo outro entendimento, a comunicação assume uma multiplicidade de perspectivas. Ela é verbal, não-verbal e, sobretudo, terreno fértil para que germinem todos os sinais e significações. A comunicação é um elemento preponderante das nossas vidas. Precisamos dela para nos fazermos entender, para nos entendermos e para entendermos os outros. Ela é uma ponte que nos liga à outra margem e aproxima (pelo menos) dois seres que se ligam e que se compreendem. Nem sempre estamos conectados connosco e muito menos com os outros. Por isso, o caminho está repleto de conflitos e incompreensões. Nem sempre sabemos colocar-nos no lugar do outro para procurarmos entender a sua perspectiva sobre determinado assunto. Estamos demasiado entretidos e confinados ao nosso pequeno mundo. Estamos intensamente ocupados com tantas banalidades que não conseguimos sequer entender as nossas reacções e os nossos comportamentos. Não temos tempo para nós, para a nossa quietude. Não temos tempo para estabelecermos uma verdadeira comunicação connosco que nos faça ouvir a nossa própria voz, para nos compreendermos mais e melhor. Se não nos compreendermos não podemos compreender os outros. E para alcançarmos esse grande desafio temos que começar por nós. Por nos entendermos! A partir daí podemos avançar no caminho. Augusto Cury disse a este propósito que a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro é uma das funções mais importantes da inteligência e demonstra o grau de maturidade do ser humano. Neste sentido, se conseguirmos chegar a esse patamar, significa que estamos mais leves e mais elevados também. Precisamos muito de ir por aí, primeiro para conversarmos connosco, para nos entendermos, e depois para entendermos os outros, aprendendo a colocar-nos no seu lugar para olharmos para as coisas sobre outra perspectiva. Este exercício não é fácil. Implica humildade e disponibilidade. Exige atenção e flexibilidade. Convoca a tolerância e lima todas as arestas necessárias para que a concórdia reine depois de nos ouvirmos e de verdadeiramente escutarmos o que todos têm a dizer. Repito, este exercício não é fácil, mas precisamos todos de caminhar pelas veredas da compreensão para alcançarmos um desafio maior que representa o equilíbrio da nossa dimensão humana. E por mais exausta que seja a tarefa não nos devemos cansar porque, como nos disse Fernando Pessoa, “cansamo-nos de tudo, excepto de compreender.” Precisamos desse desassossego e dessa inquietação permanente para que a vida, que passa demasiado depressa, possa ser entendida e vivida na sua plenitude. O grande mestre da palavra portuguesa continua nesse caminho, desafiando-nos para a descoberta do nosso “eu” profundo, na medida em que “sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela.” Não precisamos de abanar a cabeça e de concordar com tudo e com todos. Precisamos apenas de compreender e de nos sintonizarmos com as perspectivas dos outros, concordando ou discordando com toda a lealdade. Mas para que tudo isso aconteça precisamos de ouvir com atenção o que dizem e o que dizemos. Nem sempre nos dispomos a isso neste complexo mundo em que vivemos, repleto de gritarias e de estados egocêntricos que raramente saem do seu lugar para parte nenhuma, com excepção para a geografia do aumento galopante da sua surdez. Este é, claramente, um desafio que temos de superar em conjunto.