Domingo, 25 de agosto de 2019

Temperare

“A primeira vítima da falta de temperança é a própria liberdade.”  Séneca

A vida está repleta de inquietações, convulsões e impulsos desmesurados. Na agitação de todos os dias o sangue corre mais depressa e tudo ferve com demasiada intensidade. Andamos ansiosos, insatisfeitos e, como consequência, sempre prontos para soltar o verbo como arma de arremesso contra tudo e contra todos. Às vezes parece que os nossos problemas se resolvem se atirarmos pedras e palavras agressivas contra os outros. Sem pretender ser pretensioso ou moralista, julgo que precisamos de nos temperar, todos! E se o fizermos a vida correrá melhor para nós e para os que se cruzam no nosso caminho. A comida precisa de tempero. Precisa de sal e de especiarias na dose certa; em primeiro lugar para não a estragar e, sem segundo lugar, para potenciar o seu sabor! No fundo, é disso o que precisamos na nossa vida. Precisamos de convocar a temperança (do latim temperare) que significa, precisamente, moderar, temperar e equilibrar. Há quem defenda que, às vezes, é necessário dar, como se costuma dizer, “uns murros na mesa” para que tudo siga o caminho da normalidade ou para as coisas “entrarem nos eixos”! Não duvido destas perspectivas! Mas também sei que a temperança convoca a harmonia e dispõe os espíritos para boas decisões e bons caminhos. Quando o nosso sangue ferve temos que o saber controlar para promovermos, em determinado momento, os equilíbrios em falta e caminharmos no sentido da concórdia para, por sua vez, tomarmos decisões com mais sabedoria e compreensão. Nem sempre é fácil seguirmos por aí. A conflitualidade é uma condição inata ao ser humano. E do conflito também se pode fundar a harmonia se as partes beligerantes souberem, a determinada altura da contenda, promover os equilíbrios necessários e temperar o ambiente como se do apuramento de um belo e saboroso arroz de cogumelos se tratasse. Tudo precisa de temperos na dose certa! E nesse sentido, como disse Goethe, “a temperança é um dos maiores prazeres” que um homem pode ter. Nem sempre conseguimos alcançar a temperança por mais que esse seja o nosso desejo. M as, nos tempos agitados que correm, precisamos, mais do que nunca, de combater a ansiedade e trabalhar, com aplicado afinco, no controlo das nossas paixões para que a harmonia e a tranquilidade reinem sobre o nosso caminho. Os conflitos fazem parte da vida. E devem ser encarados com normalidade. Mas tudo na vida precisa de temperança. Não podemos andar sistematicamente a balancear entre o 8 e o 80! Temos que seguir pelas veredas da ponderação e da sensatez. De vez em quando e alimentados pela nossa eterna impulsividade temos que sair do carreiro, desfrutar de todos os desequilíbrios (também é preciso) para, com paulatina serenidade, regressarmos ao anterior ponto de partida. A nossa personalidade vai sendo moldada em todos os equilíbrios e desequilíbrios da nossa viagem. Mas, em todas as aprendizagens, boas e más, devemos sempre ter a temperança como ponto de retorno e como referência de equilíbrio e estabilidade. O grande Séneca disse, a propósito, que a “primeira vítima da falta de temperança é a própria liberdade”. Neste sentido, devemos usufruir das nossas emoções até aos limites do prazer e entrar em todas as batalhas que sejam necessárias para que a conflitualidade seja um sal que nos tempere. Mas, para não perdermos esse bem maior que é a liberdade e também todos os equilíbrios que ela promove, devemos aprender a gozar cada momento na sua plenitude, mesmo exagerando, para percebermos a temperança, e sobretudo, o seu enorme poder como garante da nossa felicidade.