Martes, 10 de diciembre de 2019

O valor da confiança

“Talvez eu seja enganado inúmeras vezes… Mas não deixarei de acreditar que em algum lugar, alguém merece a minha confiança.” Aristóteles

Há uma coisa muito importante que devemos transportar no nosso alforge durante a nossa viagem. Essa coisa chama-se confiança. Acima de tudo precisamos de confiar para sentimos a verdadeira dimensão da nossa humanidade. Precisamos de confiar em nós e confiar nos outros. A confiança é um “acto de fé que dispensa raciocínio” como nos disse Carlos Drummond de Andrade. Sim, também vou por aí. Mas, o problema é quando perdemos a confiança, em nós e nos outros. Também não podemos confiar nos outros se não tivermos confiança em nós. E esta é uma noção que se deve apresentar de forma clara no nosso pensamento e, sobretudo, no nosso coração. Por isso, às vezes, devemos voltar para trás e fazer tudo de novo! Na palavra de Dostoievski a confiança “dá-nos paz e serenidade”. A confiança, a paz e a serenidade, formam, sem dúvida, um belo conjunto de palavras! O grande mestre dos afectos, Nelson Mandela, dizia que “damos sinal que o bem pode ser alcançado entre seres humanos que estejam preparados para confiar, preparados para acreditar na bondade das pessoas.” E nós estamos preparados para confiar? Confiamos verdadeiramente nos outros? Confiamos em nós? Este é um exercício que devemos fazer na nossa intimidade como se nos estivéssemos a confrontar com o espelho da verdade. Acreditamos ou não? Confiamos ou não? Durante o nosso caminho seremos enganados muitas vezes! E outras tantas deixaremos de ter confiança em nós! Perdemos, muitas vezes, a confiança em nós e nos outros. Quando somos enganados temos uma tendência natural para confiar menos nos outros. Quando depositamos muita confiança ou expectativas em alguém o risco da decepção é elevado. Ficamos tristes e também confusos. Não sabemos se definimos mal as nossas expectativas ou se o “medidor” da confiança estava avariado nesse momento ou ainda se o nosso coração falhou porque estava cego pelo amor ou pela amizade. Acontece! Mas não devemos atirar “a tolha ao chão” ou fecharmo-nos no nosso castelo de ferro para que não entre ninguém no nosso coração ou para não voltarmos a confiar pelo simples facto de não nos querermos cruzar com nova decepção. Nada disso! A vida é para ser vivida com todas as suas imperfeições. O caminho é feito de altos e baixos, de alegrias e tristezas. Viver é acertar e errar. É acreditar e conviver com a confiança e com a desilusão. Aristóteles disse-nos que “talvez eu seja enganado inúmeras vezes… Mas não deixarei de acreditar que em algum lugar, alguém merece a minha confiança.” O caminho é para ser percorrido com confiança, em nós e nos outros. Se, entretanto, nos decepcionarmos, connosco ou com os outros, devemos simplesmente seguir viagem, olhar para o sol e para horizonte, respirar fundo, e assim ganharmos espaço para alojarmos de novo a confiança. E confiarmos em nós é um princípio fundamental! Em momentos de hesitação devemos sempre colocar a mão no alforge ou no coração para verificarmos se a confiança ali continua com toda a sua força e vigor. Muitas confusões e males do mundo seriam evitados ou diminuídos se aprendêssemos a gostar mais de nós. Esse é o grande segredo! Devemos gostar de nós para gostarmos dos outros! Devemos acreditar em nós para confiarmos nos outros! Não devemos olhar para a nossa sombra. Devemos olhar para o sol que a todos ilumina por inteiro. E se nós aprendermos a gostar de nós rapidamente nos dedicamos a gostar de quem gosta de nós. E se assim fizermos a cadeia do amor e da confiança alarga-se, tornando-se mais forte e coesa. Como dizia Mário Quintana, “o segredo não é cuidar das borboletas mas cuidar do jardim para que elas venham até nós”. E se assim fizermos nós não vamos encontrar quem procuramos mas sim quem nos procura. Temos que procurar muito para encontramos o que desejamos. Mas também devemos deixar que nos encontrem e que venham até nós para depositarem amor e confiança no nosso alforge e no nosso coração. Para que isso aconteça devemos eliminar todas as muralhas que nos envolvem para que a nossa fortaleza interior ganhe toda a sua força e esplendor. No fundo, devemos aprender com Mário Quintana, não cuidando das borboletas mas sim do jardim para que elas venham sempre até nós, principalmente as que exibem as magníficas cores do amor e da confiança.