Miércoles, 11 de diciembre de 2019

Os ponteiros do relógio da vida

“Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem.”

Marcel Proust

O movimento dos ponteiros do relógio marca um ritmo, uma cadência. Marca o tempo! Às vezes os ponteiros ficam parados, por falta de corda ou de pilha. O tempo do relógio pode atrasar-se ou ficar parado. A fabulosa mecânica deste instrumento maravilhoso que revolucionou a organização do tempo das nossas vidas também tem as suas falhas. Tem um percurso metódico mas, por vezes, falha. Atrasa-se! Apesar disso, não dramatizamos o momento. Acertamos os ponteiros, damos corda ao mecanismo ou compramos uma pilha nova. Tudo volta a funcionar como dantes. Andamos com os ponteiros para trás e para a frente até os acertarmos com o tempo real, medido por outros relógios que estão a funcionar no compasso certo. De resto, como diz Paulo Coelho, “mesmo um relógio parado consegue estar certo duas vezes por dia.” E é verdade! O tempo avança sem pestanejar e em dois momentos exactos será sempre meio-dia ou meia-noite. Um relógio parado estará sempre certo nesses dois tempos! Mas, nos intervalos dessas horas existe um tempo que nos condiciona. Se andarmos com um relógio fora do tempo certo podemos desorganizar a nossa vida, faltar a reuniões e a compromissos. E como não queremos chegar atrasados ou faltar a compromissos procuramos andar com o nosso relógio no tempo certo. Acertaremos os seus ponteiros sempre que necessário para que se ajustem ao tempo real. Mas, noutra perspectiva, não podemos acertar os ponteiros do relógio da nossa vida, uma vez que esse relógio nunca se atrasa, nunca fica parado. Está sempre a andar para a frente, a caminho do futuro. Por isso, não conseguimos acertar esse tempo mesmo que o queiramos fazer. O tempo passa. Não volta para trás! Quantas vezes não tentámos fazer andar os ponteiros do relógio da nossa vida para trás? Quantas vezes não tentámos fazer com que coisas que aconteceram não tivessem acontecido? Quantas vezes não tentámos voltar ao tempo que passou para, simplesmente, fazer tudo de novo e aproveitar melhor a vida? O tempo é implacável. Envelhece tudo por onde passa! Sabemos que é assim! Sabemos que esse é o seu sentido, o seu destino. Mas, também, por vezes, andamos tão distraídos com coisas sem importância nenhuma que nos esquecemos de viver; de viver o presente com a intensidade que ele merece. Como disse Marcel Proust “os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem.” Cada dia é uma aventura e um tempo novo. Não se repete mecanicamente como o movimento dos ponteiros de um relógio. O tempo da vida mede-se pela intensidade e pela vida que se vive ou se deixa fugir entre os dedos. Quando vamos contando os anos que passam percebemos, cada vez melhor, as coisas que devíamos ter feito e não fizemos e também o que fizemos de bem e menos bem. Em certas alturas isso pode provocar grandes angústias. Sobretudo se pensarmos muito nessas coisas! Mas, não devemos ir por aí. O tempo que passou já seguiu o seu caminho. Não há nada que o consiga trazer de volta. O futuro é um tempo que ainda não bateu à nossa porta. Só nos resta o presente. E é esse o nosso tempo. E é esse tempo que devemos aproveitar e viver com todas as nossas forças e energias. É esse tempo que devemos saborear e aproveitar para amar e abraçar os que nos rodeiam. E se assim fizermos as coisas correrão sempre bem? Não, claro que não! Porque, como nos disse Franz Bardon, “o universo inteiro iguala-se ao mecanismo de um relógio, com engrenagens mutuamente dependentes.” Sim, as nossas engrenagens estão interligadas nas engrenagens dos outros. Por isso é que as coisas nem sempre correm como nós queremos, nem, provavelmente, com os outros querem. A vida não é um relógio suíço! E a intensidade das nossas emoções e das coisas que fazemos alteram rumos e desbravam caminhos que não estavam previamente estabelecidos. Tudo acontece por uma razão. E tudo tem um tempo para acontecer. Por isso, devemos, simplesmente, viver a vida como ela merece ser vivida. E em cada dia devemos fazer um esforço para compreendermos e entrosarmos melhor o que pensamos e fazemos com o que os outros pensam e fazem, retirando, sempre que possível, as areias da engrenagem! O futuro e a eternidade ficam para mais tarde. Até porque a “eternidade é um relógio sem ponteiros”, como disse Mário Quintana.