Sábado, 18 de noviembre de 2017

A tentação da superficialidade

Vivemos tempos de superficialidade. Nada se aprofunda. Tudo se mede pela rama e pelo parece que é. As novas tecnologias da informação e comunicação provocaram um avanço notável e um desenvolvimento muito acelerado em muitas coisas da nossa vida. Quando não existe internet perdemos uma série de funcionalidades. Alguns ficam quase perdidos. Mas as redes tecnológicas e sociais convocam-nos para uma espécie de tentação da superficialidade onde o que interessa é o instante e se mostra apenas a aparência da felicidade. E isso é preocupante. A vida é uma montra, uma passadeira onde devemos desfilar com um sorriso nos lábios e debitar sucesso a todo o instante! Mas isso não existe! Ninguém consegue ter sempre sempre um sorriso nos lábios. Ninguém consegue ter sucesso a toda a hora! Há sempre momentos de lágrimas e de fracassos. A vida real é assim mesmo. É composta de momentos bons e menos bons. As redes sociais e a vida vertiginosa que a maioria de nós leva faz com que tudo se jogue na aparência, na aparente felicidade e no sucesso que por vezes não existe mas que é preciso colocar on-line para que todos vejam como estamos bem. Isso é um erro e um reflexo negativo desta tentação da superficialidade que a toda a hora nos desafia para seguirmos a futilidade das coisas que temperam as vidas cada vez vazias. As imagens construídas em cima de colunas de barro caem ao menor sopro de realidade como um magnífico castelo de cartas! Falta-lhes sustentabilidade! Mas, apesar disso, estes tempos de superficialidade frenética vão alimentando ódios e invejas e, sobretudo, muitos desentendimentos. Entretanto a vida passa, mais depressa do que pensamos, e não a aproveitamos, verdadeiramente, na medida em que procuramos viver uma vida paralela à realidade. E esse paralelismo existe apenas na aparência e na superficialidade das coisas e das vidas que se vão enchendo de vazios e de todos os nadas que encontram no caminho.  É preciso que acordemos desta espécie de letargia em que mergulhámos para não constatarmos, como disse Caio Fernando de Abreu, que “apesar de muitas conversas, pouca coisa foi dita. O essencial sempre ficará no fundo, esmagado pela superficialidade.” Temos que conversar mais, tocar mais e sentir mais. Se conseguirmos olhar para dentro, para o nosso interior e escutar o nosso coração também perceberemos melhor todas as nossas forças e fraquezas. Nesse diálogo intimista que deveremos estabelecer connosco encontraremos a nossa essência e também um tempo precioso que nos resgatará das profundezas da geografia da superficialidade. Sejamos individualistas no sentido de gostarmos de nós, para amarmos o que vemos reflectido no espelho e assumirmos tudo o que é bom e menos bom. Se assim fizermos, sem complexos nem exuberâncias, estaremos absolutamente disponíveis para nos darmos aos outros, amando-os, e assim construirmos uma realidade verdadeira que, naturalmente, esmagará a superficialidade que nos tenta a todo o instante. Neste exercício de diálogo a que devemos recorrer não precisamos de cortar com as redes sociais nem mesmo com a superficialidade em si. Apenas não nos devemos esquecer na nossa condição e assumirmos um caminho humanista, com valores solidários e fraternos, que por vezes acerta com o destino e outras vezes descarrila por completo. É nos altos e baixos da nossa viagem que devemos encontrar a nossa realidade para a assumirmos na sua plenitude e também para deixarmos que os outros, os que gostam de nós como verdadeiramente somos, entrem pelas janelas do nosso coração para nos virem abraçar sempre que quiserem e sempre que precisarmos de uma abraço sentido que não necessita de convite ou convocatória e, muito menos, de ser colocado on-line para provar a sua existência. Finalmente, devemos olhar para a tentação da superficialidade como um desafio que devemos superar para nos definirmos dentro da realidade que o nosso coração palpita cada vez que bombeia sangue na alma.