Domingo, 19 de noviembre de 2017

Os frutos da procrastinação

A procrastinação dá frutos? Talvez, mas vamos por partes. Primeiro, só para os mais distraídos, importa dizer que a procrastinação é, numa versão simplificada, o acto de adiar algo ou prolongar uma situação para ser resolvida depois. Regra geral está associada à preguiça e ao deixa andar. Provoca, entre outros, sentimentos de culpa, gera ansiedade e tensões nervosas e está em linha com a baixa auto-estima. Ou seja, para muitos, é uma coisa negativa. É uma atitude que merece análise e profunda reflexão sobre aqueles que a praticam. Procrastinar é, talvez, a arte de deixar para amanhã as coisas que podemos e devemos fazer hoje. Num sentido mais profundo é um comportamento que gera preocupação porque emite sinais de alerta sobre algo que, aparentemente, segue por um caminho menos convencional. Talvez alguma coisa não esteja bem nas naqueles que procrastinam. Neste quadro, quase psicanalítico, a procrastinação surge como um doença que se assume como ladra do tempo da produção das coisas. Atenção (!) que “quem procrastina pouco produz”, dizem os arautos de tudo e mais alguma coisa! Há por aí muitos! Sabem de tudo! Falam sobre tudo e dizem muito pouco ou quase nada sobre tudo e alguma coisa. Naturalmente e fazendo uma cedência a certas plateias, devo dizer que a procrastinação pode constituir-se como um sinal de falta de interesse ou motivação para fazer isto e aquilo. Isso é verdade! Mas, se conseguirmos mergulhar no lado profundo do significado desta palavra tão interessente, percebemos, em primeiro lugar, que ela é mais do que uma simples palavra ou uma mera atitude. Ela é um mundo! Num primeiro ângulo de análise é preciso perceber que os que procrastinam não são os que não querem trabalhar! Esses têm outros nomes! Quem procrastina pode fazê-lo por muitas razões. A primeira delas é dar espaço à criatividade. Neste sentido, procrastinar é libertar a imaginação para que ela produza coisas belas e intensas. Quando produzimos com método, tempo marcado e limites espaciais e temporais a nossa imaginação esvai-se no cumprimento dos objectivos e das metas estipuladas. Quando deixamos o tempo fluir, mesmo que exista um caminho e coisas para fazer, os resultados são infinitamente melhores. É por aí, algures no campo de todas as liberdades, que nascem as obras-primas e as grandes referências que todos admiramos! Por exemplo, Leonardo da Vinci era um procrastinador, um mestre nessa arte de deixar para amanhã o que se pode fazer depois de amanhã, como nos disse Óscar Wilde. E quantos de nós não procrastinam? Quantos de nós não inventam desculpas para não fazer isto e aquilo ou cumprir aquela tarefa menos desejada? Quantos não preferem adiar uma decisão desconfortável do que a tomar no imediato? Procrastinar não é adiar decisões no tempo nem, como se diz em bom português, empurrar com a barriga os problemas para a frente! Procrastinar é deixar fluir o pensamento e não agir por impulso. É fazer as coisas mais devagar. É definir prioridades e conseguir, ao mesmo tempo, invertê-las para ganharmos, tantas vezes, a paz de espírito e a serenidade que ajudarão a resolver todas as complexidades. Procrastinar é invocar a clareza mental e estimular a intuição e a criatividade. Às vezes é preciso não decidir ou não agir de imediato para que o cosmos possa regular e colocar algumas coisas no seu lugar. A partir daí o campo fica mais aberto para uma decisão mais consciente, menos racional, mais intuitiva e, provavelmente, mais justa e objectiva. A este propósito o filósofo John Perry afirmou o seguinte: “Nunca cumpra hoje uma tarefa que pode desaparecer amanhã”. Na verdade, às vezes, algumas tarefas em que nos empenhamos muito não fazem sentido no dia seguinte porque, entretanto, as coisas mudaram a uma velocidade inimaginável. Também por isso é preciso procrastinar para dedicarmos atenção ao que merece o nosso entusiasmo e para resolvermos, com mais luz e sabedoria, questões que estão muito para além de um primeiro olhar! Neste e em todos os sentidos a procrastinação dá frutos! Apenas temos que regar as nossas plantas e cuidar das nossas capacidades e competências para que elas fluam como o vento que passa.