Sábado, 18 de noviembre de 2017

Os bajuladores

Já todos nos cruzámos com bajuladores. É gente que rasteja por aí. Sim, não andam, rastejam. Estão em todo o lado. Alimentam-se da vaidade humana. A bajulação, como dizia o moralista francês do séc. XVII Francois de la Rochefoucauld, “é a moeda falsa que só circula por causa da vaidade humana”. Os bajuladores vivem “às custas de quem os escuta”, como referiu La Fontaine a propósito destas criaturas intemporais. São perigosos. São ambiciosos. Desejam poder. Querem poder. Entram no jogos das trocas para alcançarem o poder. E conseguem alcançá-lo. Mesmo que poder seja um pequeno nada nas que fica acima do outro. Já serve os propósitos da inclinação frequente. Os bajuladores não têm escrúpulos! Trocam de adulado em função das circunstâncias. Trocam-no sempre por outro com mais poder ou que lhes pode dar mais benefícios. São parasitas. Não têm competência técnica e não querem saber de trabalho nem de persistência no caminho duro da aprendizagem e da experiência. São projectados para cima como foguetes que funcionam propulsionados através do fogo da rastejante arte da bajulação. Não têm nada para oferecer a não ser a bajulação. Adulam os que têm poder e os que julgam que têm poder. Apenas querem benefícios e subir na hierarquia de qualquer coisa. Pisam tudo e todos. Traem e destroem tudo por onde passam. Não produzem nada, promovem a intriga, alimentam-se dela, vivendo num lodaçal constante onde a ética e os valores não conseguem entrar dada a viscosidade do ambiente de sombra onde se escondem. Muitos conseguem os seus objectivos. Há sempre quem queira ser bajulado. Há sempre alguém disposto a bajular para conseguir alguma coisa. Estão bem uns para os outros. O poder é uma coisa terrível. Nem todos estão à altura de o exercer. Os chefes precisam de bajuladores para aumentarem ou prolongarem o seu poder. Entram no jogo das trocas e da perpetuação das coisas rastejantes. Os líderes não querem bajuladores a rastejar à sua porta. Não precisam deles. O seu caminho e dos seus acompanhantes livres e desprendidos é realizado com base no mérito e na competência. Os verdadeiros líderes rejeitam os bajuladores porque traçam objectivos e alcançam metas, com trabalho! Nessa trajectória não há lugar para a intriga e para a bajulice. Onde o trabalho impera a humildade cresce e a vaidade diminui, é relegada para a sombra. E na sombra os auditórios da bajulice diminuem, perdem força. Só crescem quando há gente disposta a ouvir as suas bajulices os seus exercícios lamacentos. A vaidade leva à ruina. É o abono de família dos bajuladores. Como dizia Antístenes, filósofo da antiguidade, “nada é tão perigoso como a adulação. O adulado sabe que o adulador mente, mas continua a dar-lhe ouvidos.” E continuamos a dar ouvidos a quem rasteja por causa na nossa vaidade. Se não tivéssemos vaidade e não gostássemos de ser bajulados estes seres viscosos e rastejantes perderiam o fôlego e não proliferavam como coelhos em qualquer esquina. Todos gostam de ouvir um elogio. E certamente que a maioria de nós gosta de elogiar os que, com mérito, fazem bem. Fica-nos bem a todos, nomeadamente se esse elogio ou esse sentimento for genuíno e vier do fundo do coração. Mas isso é uma coisa natural e consequente daqueles que olham para o caminho com naturalidade e espontaneidade. Não elogiam com segundas ou terceiras intenções. Não elogiam para reclamarem algo para si. Por outro lado, os que elogiam com sinceridade são os mesmos que cumprem a verdade criticando quando têm que criticar. São abertos…e livres! Os bajuladores só bajulam! Mas bajulam para alimentarem o jogo das trocas! Enrolam-se aos que têm poder, afagam-lhes o ego e inclinam-se até aos pés do bajulado. São o cúmulo do que Miguel Esteves Cardoso chamou de “engraxanço e culambismo”. São uns tristes, mas vão conseguindo as coisas que querem porque, às vezes, a vaidade ganha espaço à racionalidade e à competência. Mas, é também por isso que há comunidades que não avançam nem se desenvolvem. Apenas se enredam nas suas vaidades para gastarem os espelhos de tanto se afagarem os egos!