Viernes, 28 de julio de 2017

Entre a quietude e o pensamento

Precisamos de estados de quietude. E a quietude não é a ausência de acção ou o afastamento da pressão que a espuma dos dias nos coloca. Significa que, de vez em quando, temos que diminuir a velocidade para respirarmos o presente. E quando isso acontece deixamos fluir o pensamento. Precisamos muito da quietude e do pensamento para encontrarmos ou reencontrarmos todos os equilíbrios necessários para a continuação da jornada. A nossa vida é frenética. Vivemos com o tempo contado. Com horários para tudo! Corremos de um lado para o outro e, por vezes, sem sabermos bem para quê. Nessa correria louca habituámo-nos ao barulho. Não sabemos o que é o silêncio. Não procuramos a quietude. Não sabemos silenciar a mente. Não nos sabemos ouvir. Falta-nos tempo. Falta-nos tempo para realizarmos as coisas que nos dão prazer. Não se trata de um desejo individualista ou egoísta. Precisamos de nós e, sobretudo, de alimentar a nossa individualidade e em particular as nossas geografias do prazer que, tantas vezes, residem nas coisas mais simples. Depositamos muitas expectativas no futuro e também por isso alimentamos muito a ansiedade. Não vivemos o presente. Estamos quase sempre no meio da ponte, entre o passado e o futuro. Mas é o presente que importa! É nesse tempo que vivemos. A quietude convoca-nos para o presente, para o agora, e envolve-nos num manto de profunda serenidade. Se nos conseguirmos desligar dos ruídos que estão à nossa volta podemos mergulhar na paz que a quietude nos proporciona. Se ao actuarmos dessa forma e deixarmos a porta aberta para que o cosmos entre e nos abrace com toda a sua magnitude e simplicidade, ganharemos outra dimensão de nós. Libertaremos o ser que há em nós. Estamos sempre em movimento e com demasiado barulho à nossa volta. Temos dificuldade em parar e convergir para momentos de quietude. Fazemos mal. Não sabemos o que estamos a perder de nós! As criaturas da terra têm a habilidade a quietude. Por vezes, no meio das nossas intermináveis correrias, encontramo-nos com uma borboleta em repouso sobre uma flor ou com diversos animais perfeitamente estáticos como se estivessem petrificados e com olhos postos no infinito. Nós precisamos de imitar a sua postura para deixarmos fluir o nosso pensamento. Uma mente quieta é também uma mente desobstruída que não está agarrada a nada. É livre! A quietude liberta-nos e deixa-nos ser quem somos, verdadeiramente, sem as condicionantes que diariamente nos acorrentam a padrões disto e daquilo. Em tempos de barulhos infernais, de movimentos demasiado densos e ocos, temos que aprender a cultivar a habilidade de estarmos quietos, deixando-nos envolver pela quietude como base da nossa existência. E se o conseguirmos fazer, nomeadamente nas horas de maior dificuldade, quando estamos no olho do furacão, começaremos também a dominar, aos poucos, algumas capacidades que residem em nós mas que raramente as vislumbramos no nosso caminho de vida. Como se sabe, utilizamos uma parte ínfima da nossa mente. Não mergulhamos nas suas enormes potencialidades porque estamos demasiado envolvidos no frenesim dos dias que correm. Se trabalharmos para alcançar a quietude podemos ver mais longe e contemplar o quadro todo. Para isso, temos que treinar mais para aprendermos a esvaziar os fluxos exteriores que nos colocam barreiras tão fortes que não nos deixam encontram o nosso eu interior. E sempre que isso acontece nós não somos o que devíamos ser mas apenas uma sombra de um eu que precisa de ser descoberto. Para que essas portas se abram e a descoberta aconteça precisamos romper com essas barreiras e libertarmo-nos de todas as amarras. Nesse instante seremos livres. Nesse instante convocaremos a quietude para deixarmos fluir o nosso pensamento na descoberta da essência de nós.