Sábado, 27 de mayo de 2017

Amar não é uma questão ligeira!

“No hay fríos que no se vuelvan sol en nuestros corazones.”  Alfredo Pérez Alencart

O poeta Alfredo Pérez Alencart diz-nos que amar não é uma questão ligeira através de um dos muitos poemas selecionados por Carmen Bulzan para o seu mais recente trabalho – Una Sola Carne (Antologia amorosa 1996-2016), apresentada ao público na sexta-feira na feira do Livro em Salamanca. Sim, é verdade Alfredo, amar não é uma questão ligeira! Quase todos sabemos isso apesar de termos muito que aprender sobre o amor. Mas há o dizer e o fazer. E entre os dois verbos há uma distância enorme. Também por isso esta antologia ao amor é uma obra de referência para todos os que desejam assumir um caminho de partilha a dois, carregando todas as dificuldades da viagem e celebrando todos os raios de sol que iluminam a nossa vida. É também um bálsamo para todos os que cheiram as rosas do amor apesar de todos os seus espinhos. Não sou crítico nem sabedor de poesia mas, salvo melhor opinião, julgo que estamos na presença de mais uma obra notável do poeta peruano-salmantino que há muito encontrou um lugar como poeta do mundo, com traduções do seu trabalho de grande qualidade em várias línguas e ecos em diversas geografias e latitudes. Una sola carne é um excelente guia de viagem ao território do amor, onde se prova a carne, se beija intensamente e se assume a sensualidade, o sexo e a cumplicidade como um projecto de vida que vai muito para além do prazer carnal. Há nesta antologia um diálogo muito interessante entre o amor carnal espiritualizado e o amor espiritual encarnado, como escreve Carmen Bulzan na introdução deste magnífico conjunto arrumado de palavras de amor: “el espíritu y la matéria, lo sacro y lo profano, mano a mano. Él y ella, animus y anima…una sola carne.” Esta belíssima recolha de poemas (com um intervalo temporal de 20 anos) é um mergulho na intimidade de um casal que se ama para a vida, uma prova de coração, um exorcismo sobre a grande viagem – o êxodo e o exílio – e, sobretudo, a manifestação de uma religiosidade profunda, uma fé intensa, que une dois seres num só … que se amam “en la tierra y en el cielo, com la avidez del principiante que de golpe busca saciar su hambruna.” Jacqueline é uma mulher cheia de sorte porque é uma mulher amada por um homem simples que também é poeta mas que promete não prometer nada, apenas amar e caminhar lado a lado porque “somos una sola carne tomando altura en lo sagrado.” Mas o poeta do mundo é um coração iluminado e feliz que conta com o amor incondicional de Jacqueline e com o seu grande porto de abrigo que, como escreve, o “acompanhe en mis causas perdidas. Yo un desastre de hombre que la ama bajo esta densidade de la vida com fe y sin monedas.” Esta antologia comove que tiver a sorte de gastar a vista folheando as suas páginas. É um hino amor e um tratado de simplicidade. Não há vidas perfeitas. Não há romances perfeitos. Não há vidas sem altos e baixos. Mas, o poeta de “una sola carne” conta-nos o seu exemplo: “No hay fríos que no se vuelvan sol en nuestros corazones.” Sem querer abusar da minha interpretação destes poemas julgo que esta antologia poética é uma grande autobiografia de um casal e de uma grande viagem entre o Peru e Salamanca que assentou estacas na magnífica cidade das pedras douradas para cultivar amor e a esperança. Ainda bem Alfredo que viste dessa américa longínqua mas próxima nos tempos dos afectos e da profunda ligação histórica e cultural que une os povos da Ibéria com todo o mundo novo que há muitos séculos foi descoberto. Ainda bem que te dedicas com absoluta paixão a essa grande arte que é a de escrever palavras com sentido e com amor. Esta é uma antologia que deve ser lida por todos os cultivam o amor e a espiritualidade. Esta colecção de poemas deve ser guardada na memória porque “solo necessita Amor quien no tiene cuadrado el corazón.” Precisamos de amor por estes dias cinzentos para que o tempo e o espaço se tornem mais doces. Precisamos do perfume das orquídeas, das águas do Tormes e de todos os rios que inspiram os poetas para que “este hombre que suelo ser yo” possa “ver la silhueta de su dama en el río que pasará mañana.” Dois num só, um caminho comum, uma só carne que se apaixona a cada instante mas que sabe ter a referência do alto e esperar que o manto de Deus cubra de alegria e felicidade o amor que corre como o rio. Parabéns Alfredo. Parabéns por escreveres mais uma bela página na história do amor e dos afectos das geografias que a humanidade vai cruzando até ao mar.