Lunes, 18 de diciembre de 2017

O perfeito vazio

Às vezes tu tens mais frio / Às vezes eu fico imóvel / Pairando no vazio / No perfeito vazio / às vezes lá faz mais frio / No teu peito vazio    

Xutos & Pontapés

 

 

 

 

 

Há dias revisitei uma das bandas que desde sempre acompanharam a minha existência, nomeadamente desde os tempos da minha juventude – os Xutos & Pontapés! Sempre gostei desta banda portuguesa de rock, fundada nos famosos anos 70. Os “Xutos”, como a designamos, são uma daquelas bandas que contam e cantam as nossas vidas com letras e músicas tão simples que encaixam na perfeição com os momentos que estamos a viver. Muitos anos depois da sua fundação a maioria dos seus temas ganha, em função das circunstâncias e voltas da vida, uma actualidade impressionante. Foi nesse sentido que prestei mais atenção à letra da canção “Perfeito Vazio” que integra o álbum de celebração dos 30 anos desta banda mítica (2009). Esta canção fala-nos de “uma folha de papel vazia”, de “pequenas coisas” e de “pequenos pontos” que nos vão “mostrando o caminho”. É uma letra muito forte que toca o “peito vazio” de quem “paira no vazio”, “no perfeito vazio”. Como se sabe o vazio não é o mesmo que nada. O “nada” é o vazio absoluto! O vazio já é qualquer coisa na medida em que é um espaço com capacidade para colocarmos algo mesmo que seja apenas um campo gravitacional. O perfeito vazio não é o vazio absoluto. Já é qualquer coisa e “lá faz mais frio”, como nos cantam os “Xutos”. Mas, julgo que podemos ir mais longe e interpretar o significado desta canção como um recado à nossa existência e ao “perfeito vazio” em que insistimos diariamente. Como nos diz Schopenhauer o vazio encontra a sua expressão na infinitude do tempo e do espaço por oposição à finitude do homem em ambos. A nossa vida é um tempo fugaz e assenta na transitoriedade. Se conseguirmos apreender este significado e escutar melhor esta canção dos “Xutos” as nossas vidas poderão ganhar mais luz e cor na medida em que podemos preencher o vazio com o significado da nossa existência. Viver é uma coisa simples que teimamos em complicar. Queremos isto e aquilo. Corremos para aqui e para ali. Desejamos coisas, traçamos metas e objectivos. Quando alcançamos alguma coisa não ficamos satisfeitos. Queremos mais. Queremos sempre mais num desejo louco de insatisfação completa. Quando damos conta estamos próximos do fim da nossa viagem. Vamos ficando frustrados porque não conseguimos nem isto nem aquilo. Percebemos que nos falta tempo e que a energia já não é a mesma. Os nossos olhos enchem-se de lágrimas. Sofremos muito. Continuamos no perfeito vazio apesar de termos andado sempre a correr e a lutar pelas coisas que sempre desejámos. No meio dessa azáfama esquecemo-nos de viver. Esquecemo-nos de preencher o vazio com as pequenas coisas e os pequenos prazeres de cada dia. Nunca nos situamos no presente. Pensamos sempre no futuro, nos desejos do futuro. Ou então passamos o tempo a olhar para trás, para o que já foi e para o que aconteceu. Nunca acertamos os ponteiros do relógio com o tempo presente. Por isso, a nossa vida é uma corrida contra o tempo que pela nossa falta de atenção nos leva ao perfeito vazio. Mas não podemos viver uma vida provisória e vazia! Devemos viver de acordo com as nossas emoções, com todas as nossas virtudes e defeitos, e também com todos os nossos erros. Devemos assumir o que somos e desejar menos para termos mais! A nossa pele deve abandonar a cobiça das coisas materiais para agarrar a plenitude de outras dimensões, nomeadamente as espirituais. Então, renunciamos a tudo o que é material? Não, nada disso! Introduzimos é mais equilíbrio no nosso caminho. Assim, se desejarmos menos o futuro e procurarmos viver o presente no seu sentido mais verdadeiro estamos a preencher o vazio e a torná-lo num lugar mais imperfeito mas com maior dimensão humana; num lugar com mais prazer. Mas, por outro lado, se conseguirmos viver o presente de uma forma intensa provavelmente também não alcançaremos a felicidade plena. Se isso acontecesse ficaríamos completamente manietados pelo tédio. E isso não pode ser! Por isso, vamos continuar esta aventura do presente com os olhos postos na ideia de felicidade que o futuro nos apresenta. Mas isso não será uma contradição? Não, não é!