Lunes, 18 de diciembre de 2017

O teatro da vida

Sempre gostei da grande arte do espectáculo que é o Teatro. Tenho uma profunda admiração por todos os que se dedicam à sua criação, nomeadamente por aqueles que se entregam a este mundo particular sabendo das enormes dificuldades que o mesmo encerra. Apesar de todas as circunstâncias encontramos gente apaixonada pelo Teatro e inteiramente disponível para se entregar à tarefa de encarnar muitos papéis de tantas vidas, umas que existem e outras, que mesmo sendo inventadas, são o espelho da nossa alma e a melhor tradução daquilo que somos. Afinal a vida é, como nos disse o grande Charlie Chaplin, “uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, ria, dance, chore e viva intensamente cada momento da sua vida, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos”. O teatro da vida tem em cena uma peça que corre demasiado depressa. Por isso, devemos aproveitar cada momento e cada desempenho dos papéis que nos estão destinados para os vivermos com a maior intensidade possível. Às vezes há aplausos. Outras vezes um silêncio ensurdecedor. Nuns dias o riso e a alegria tomam conta de nós. Noutros mergulhamos em profunda tristeza e consternação. O carrocel das emoções sobe e desce a uma velocidade vertiginosa. Os papéis desempenhados seguem-se em catadupa, uns atrás dos outros. Mas, essas personagens encarnadas somos nós, verdadeiramente vestidos com a nossa pele e deixando em palco o nosso coração. Há um fio condutor nisto tudo que importa desvendar e compreender. Na palavra de Schopenhauer “todos deviam actuar no teatro de marionetas da vida e sentir o arame que nos mantém em movimento”. E é precisamente esse movimento que não devemos descurar que nos alimenta os sentidos para seguirmos em frente. Em cada momento podemos ser as marionetas ligadas a arames que dizem coisas com vozes de outros ou sermos a metamorfose de nós, assumindo um determinado papel. O nosso papel principal, a nossa vida em palco. Enquanto dura a peça devemos dar o máximo de nós, cantando, rindo e chorando para que tudo não tenha sido em vão. Não sabemos, apesar de todo o empenho, se a peça será aplaudida de pé ou se não conhecerá sucesso algum. Mas isso pouco importa. Na realidade o que é verdadeiramente significativo é conseguirmos entrar nos nossos personagens assumindo o desempenho para nós, para nosso deleite e contemplação. Nesse sentido, ao vivermos para nós, com toda a humildade e alegria, estamos a dar-nos aos outros e a criar emoções para interagir com os sentidos de quem nos rodeia provocando-lhes, por sua vez, as emoções da vida em outros tantos papéis. Às vezes temos febre, estamos em baixo, não nos apetece sair do sofá para realizarmos mais uma representação de nós. Mas apesar de todas as condicionantes, físicas e de outra natureza, temos sempre que ir porque o público está à nossa espera diante do espelho que nos fita. E esse público também somos nós! Temos que fazer das fraquezas forças para representarmos todos os dias o melhor papel que pudermos. Mesmo nos momentos menos bons do caminho da nossa representação há sempre espaços de inspiração que nos acalentam a esperança de grande espectáculos por mais simples que pareçam. O que interessa é assumirmos o papel que queremos representar e ajustarmos a indumentária à nossa pele e sentirmos o cheiro e a atitude de quem queremos ser; ou seja, do nosso eu, principal personagem da nossa vida! E como sabemos se estamos a representar bem o nosso papel? É muito simples, não precisamos de ouvir os aplausos, basta escutarmos o nosso coração! Talvez por isso, Fernando Pessoa tenha dito que “no teatro da vida que tem o papel de sinceridade é quem, geralmente, mais bem vai no seu papel”. E na verdade não devemos ser mestres da ilusão; antes pelo contrário, devemos assumir a sinceridade como a porta que se abre a quem nos visita por dentro. Somos assim, com virtudes e defeitos, mas sempre a querer representar o nosso papal. Não podemos deixar essa tarefa nas mãos dos outros. Assim, deixamos de ser nós para passarmos a ser uma sombra ou um pedaço de ilusão. Mesmo sem ensaios devemos subir ao palco da vida com a alma toda e saborear cada cena como se fosse a última, antes que a cortina se feche demasiado depressa!