Domingo, 17 de diciembre de 2017

A utopia do nosso horizonte

“A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos e ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais o alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

Eduardo Galeano

 

 

 

 

 

 

 

 

Parto desta extraordinária imagem que o jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano nos deixou, ao colocar a utopia na linha do horizonte, para partilhar convosco algumas reflexões sobre esta questão que nos tem inquietado a todos desde tempos imemoriais. Apesar de todos estarmos familiarizados com a “utopia” tenho uma enorme dificuldade em defini-la. Mas isso tem pouca importância. Reconheço apenas que o grande Eduardo Galeano (que nos deixou há pouco tempo) tocou no ponto certo ao colocar a “utopia” no lugar onde sempre esteve. Ou seja, na linha do “nosso” horizonte! Por isso, quando avançamos em relação a essa linha ela afasta-se na exacta medida dos nossos passos. Percebemos que jamais alcançaremos aquele ponto. Mas também percebemos que aquele ponto no horizonte, onde está sentada a utopia, é absolutamente fundamental para não deixarmos de caminhar! O grande Galeano criou uma imagem perceptível para todos sobre a importância da utopia no nosso tempo. Não podemos deixar de caminhar, apesar de todas as circunstâncias da nossa vida! A “utopia” ganhou grande significado na antiga Grécia quando foi definida como um “não-lugar” ou o “lugar que não existe”. A “República” de Platão deu-lhe o primeiro conforto conceptual. O grande mestre defendeu que a sociedade ideal deveria ser governada pelos filósofos na medida em só os homens sábios têm a inteira ideia do bem, do belo e da justiça. Neste entendimento os filósofos teriam menos inclinação para cometer injustiças ou praticar o mal, impedindo os governados de se rebelarem contra a ordem social estabelecida. Na actualidade, entende-se que a utopia pode ser considerada como uma noção de civilização ideal, imaginária, ou um sonho não realizado, uma fantasia, ou ainda uma esperança muito forte. Há cerca de 500 anos Thomas Morus dedicou-lhe uma obra extraordinária, precisamente designada de “Utopia”. O escritor inglês desenhou um país imaginário onde ninguém possui nada mas todos são ricos na medida em a sociedade é bem governada e organizada de forma racional, promovendo a harmonia, a paz e a felicidade. Podia continuar. Mas julgo que bastam estas breves pinceladas para evidenciar que ao longo dos tempos o Homem sempre se preocupou com a grande questão da utopia que na actualidade é sempre desvalorizada em função do frenesim em que estamos mergulhados. Vivemos com pressa! Nunca temos tempo! Não vivemos o tempo presente, não o saboreamos! Não pensamos na causa das coisas! Fazemos as coisas e pronto! Concordo Nietzsche na medida em que o “filósofo é o homem de amanhã, aquele que recusa o ideal do dia-a-dia, aquele que cultiva a utopia”. Como sabemos os que cultivam a utopia são recorrentemente consideramos como aqueles que “não têm os pés bem assentes na terra” ou que “são uns sonhadores”. Às vezes quando acordamos do tempo de fazer as coisas verificamos que o tempo passou e que andámos muito caminho sem pensar, não em direcção à linha do horizonte como nos diz Galeano, mas em relação a todas as direcções e a direcção nenhuma! Todos devemos cultivar a utopia e contemplar a linha do horizonte para não deixarmos de caminhar. Este tempo é difícil e repleto de complexidade. Precisamos de tempo para respirar e pensar fora da caixa. Às vezes precisamos de ir ao cinema ou ao teatro para vermos a representação das nossas vidas para, por sua vez, podermos reflectir sobre elas e sobre a causa das coisas. Os pragmáticos dizem para nos deixarmos destas coisas porque ou que verdadeiramente faz falta é andarmos para a frente cumprindo os caminhos do progresso. Mas, como disse Oscar Wilde: “o que é o progresso senão a realização de todas as utopias”!