Lunes, 18 de diciembre de 2017

O silêncio: um argumento difícil de rebater

“Responder à ofensa com ofensa, é como lavar a alma com lama. O silêncio é um dos argumentos mais difíceis de se rebater”.  Dalai Lama

Vivemos no meio de uma cultura do barulho. Há demasiado ruído e poucos silêncios. No tempo da comunicação global o som e o ruído quase que nos asfixiam. Entramos, sem  nos darmos conta, nos automatismos do ruído. Depois do desgaste e exaustão do dia chegamos a casa e não suportamos o silêncio. Ligamos a televisão ou a rádio mesmo que não estejamos a ver ou a ouvir. É mais um automatismo. É mais uma mecanização do ruído. Quase não suportamos a quietude! Queixamo-nos de muita coisa e também do ruído, mas não promovemos o silêncio! Passamos o dia no exercício da palavra. Raramente escutamos o silêncio. O poeta Eugénio de Andrade, um dos grandes mestres da palavra, deixou-nos o seguinte alerta: “o silêncio é a minha maior tentação. As palavras, esse vício ocidental, estão gastas, envelhecidas, envilecidas. Fatigam, exasperam. E mentem, separam, ferem. Também apaziguam, é certo, mas é tão raro! Por cada palavra que chega até nós, ainda quente das entranhas do ser, quanta baba nos escorre em cima a fingir de música suprema! A plenitude do silêncio só os orientais a conhecem”. Na verdade, a nossa cultura ocidental está muito assente no barulho, no ruído! A todo o instante atiramos palavras aos outros como se fossem pedras que, como diz o poeta beirão, “mentem, separam e ferem”. As palavras são ditas com tal intensidade que saem da boca antes do pensamento e da ponderação! Por isso, elas ofendem, criam confusão, ruído e conflitualidade. Há discussões intermináveis e desgastes inúteis que não levam a lado nenhum. Apenas preenchem os dias com uma enorme vacuidade. Ofendem! Marcam o ritmo frenético e negativo de um ruído insuportável! A este propósito Dalai Lama diz-nos que “responder à ofensa com ofensa, é como lavar a alma com lama. O silêncio é um dos argumentos mais difíceis de rebater”. Compreendo-o agora melhor que nunca. Às vezes bebo da sua enorme sabedoria.  Na verdade o nosso mundo mergulhou, como diz o especialista em filosofia oriental Marc de Smedt, numa “bolha de ruído” permanente onde o silêncio é insuportável, um incómodo, criando a necessidade de o preencher com barulho, sons e palavras. Por outro lado, e ainda seguindo a opinião de Marc Smedt, na sociedade ocidental “o silêncio tornou-se sinónimo de solidão, e a solidão num dos maiores medos do homem moderno. A solidão invoca abandono, tristeza, clausura, isto porque se perdeu o prazer de estar sozinhos connosco próprios, do confronto do nosso eu mais profundo e íntimo, de nos abandonarmos a nós e ao mundo que nos rodeia.” Ao invés, a cultura oriental dedicou, desde tempos imemoriais, muita atenção ao “som” do silêncio. Parece uma contradição mas não é! O silêncio tem um som muito próprio! O silêncio não significa ausência absoluta de sons. Isso é quase impossível, especialmente no tempo actual. Mas os ruídos externos são naturais e desaparecem na exacta medida em que lhes deixarmos de prestar atenção. São os barulhos que nós provocamos que causam grande transtorno. Todos podemos e devemos fazer esse exercício extraordinário de caminharmos até ao silêncio. Talvez aí possamos ouvir e ler os nossos pensamentos e escutarmos com outra nitidez o bater do nosso coração. Se conseguirmos reduzir o barulho à nossa volta podemos, de imediato, escutar o nosso próprio corpo e tentarmos perceber o que ele nos quer dizer. Não precisamos de entrar em processo de meditação. Basta que façamos, de vez em quando, uma coisa muito simples: contemplar o que nos rodeia, reduzindo o ruído à nossa volta! Nesse momento, de quase silêncio, podemos procurar a verdade dentro de nós e também muitas das respostas para os problemas que nos têm vindo a afectar ao longo da nossa ruidosa caminhada. A contemplação do nosso silêncio pode fazer-nos ver coisas que nunca vimos e escutarmos sons raramente audíveis, como o bater do ventre de uma formiga contra o solo para comunicar com as suas congéneres. Para além disso, e em tempos de gritaria colectiva, sabe bem uma pausa para procuramos o silêncio, mesmo que seja apenas para evitarmos as palavras que fatigam, exasperam, mentem, separam e ferem! O exercício do silêncio é também um sinal de grande sabedoria e maturidade, especialmente se prestarmos atenção ao conselho de William Shakespeare: “é melhor ser rei do teu silêncio do que escravo das tuas palavras”.